Cachorro-Mendigo

Vi um cachorro na rua. Mais um entre vários que perambulam pelas cidades. Sem destino. Magro. Cabisbaixo. Mancando de uma pata. Com sarna. A cauda já não balança… Violentado. Maltratado. Torturado. Escorraçado. Humilhado… Triste. Nem procura mais quem o queira. Não nos segue na esperança que o adotemos. Não recebe um afago, um carinho. Não tem onde morar. Um enjeitado. Esta, inevitavelmente, condenado a passar o resto da vida nesta condição. É um cachorro-mendigo. Pensei que a mendicância fosse uma condição exclusiva da sociedade humana, ledo engano.

No entanto num belo dia ele nasceu. Com certeza era feliz, era saltitante, era brincalhão, era esperto, tinha saúde como a maioria dos animaizinhos.

Então, como ele se transformou num cachorro-mendigo? Será que não ouviu os conselhos da mãe? Será que andava em más companhias? Será que é preguiçoso? Será que não soube aproveitar as oportunidades que a sociedade oferece? Será que não foi competitivo o suficiente? Será que não foi prudente? Será que não se esforçou o bastante? Será que foi a cor dele? Será que não persistiu com fé? Será que foi opção de vida? Ou têm algum vício? Álcool ou droga, quem sabe? Falta de sorte? Será que ele se sente um fracassado e por isso não olha mais nos olhos dos humanos?

Estas perguntas que escrevi acima são as mesmas que se faz quando se deseja explicar o miserável humano – da perspectiva do capitalismo, é claro. Como este sistema encontra-se blindado, sempre a culpa – se é que existe culpa – da própria condição de miserabilidade recai sobre o indivíduo, logo o culpa do cachorro ter se transformado em cachorro-mendigo é do próprio animal. Concordam?

Bem, existe também cachorros bem de vida. Com roupinha. Pulserinha. Lacinhos na cabeça. Perfumado. Com motorista. Com veterinário particular. Fazem terapia. Se hospedam nos melhores hotéis. Comem muito bem. Bebem muito bem.

O que eles fizeram por merecer tal tratamento? Será que se esforçaram? Será que…?

Há tão poucos cachorros com tanto, e tantos cachorros com tão pouco. É uma injustiça.

Ainda bem que existe a Lei de Proteção dos Animais para proteger e evitar abusos. Esta mesma lei deveria ser usado também no caso dos moradores do Pinheirinho,SJC. Não seria novidade. Sobral Pinto já usou esta lei no julgamento de Harry Berger.

Um dia de caos – o aeroporto quase parou: graças a Deus.

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Primeiro  dia do ano de 2012. Domingo. Chovia moderadamente .  Não havia  trânsito. São Paulo estava vazia.  Assumiria meu posto no aeroporto de Cumbica as dezesseis  horas. De carro levo  vinte minutos para chegar. Sai de casa com o coração tranquilo, as quinze e dez. Sem afobação. Sossegado.

Peguei  a  Rodovia Ayrton Senna. Poucos carros trafegavam. Aviso da concessionária aos usuários : “Trânsito lento na alça de  acesso ao aeroporto”. Pensei:  e daí, tenho  tempo de sobra pra chegar.  Continuei no meu ritmo de domingo de feriado. Porém, a uns duzentos metros antes de acessar a tal alça o trânsito parou. Olhei  e só enxergava a minha frente uma fila de carros e  ônibus parados. Não sabia o que tinha acontecido. Bem,  liguei  para o serviço avisando que iria chegar um pouco atrasado. Do outro lado da linha veio uma péssima notícia. Eu não iria chegar um pouco atrasado, iria chegar muito atrasado. Mas por quê? Fui informado pelo colega de um evento. Inauguração de um templo de uma igreja em Guarulhos.  Estava uma confusão  desde as oito horas da manhã. Desde as oito horas da manhã?!!! . Não é possível.  Porém, descobri que é possível.

No taxi, imediatamente à minha frente, um casal começou a dar sinais de impaciência. Ela parecia olhar as horas  constantemente. Falava alguma coisa para seu companheiro. Ele passava a mão na cabeça num gesto típico de quem está impotente diante da situação. Na verdade,  todos estávamos impotentes e ansiosos.   Após 50 minutos  que estava “estacionado” passou  o primeiro grupo de pessoas a pé debaixo de chuva. Dois adultos e três crianças levando cada um uma mala. Com certeza passageiros  tentando chegar ao aeroporto.  No desespero para não perder  o voo  tinham abandonado o seu meio de transporte. E, talvez não tivessem a noção da distância que se encontravam de Cumbica. Estávamos longe dos terminais. Muitos tomaram a mesma atitude, inclusive o casal  mencionado acima. Lembrei -me  dos filmes apocalípticos em que se vê carros abandonados na estrada  e as pessoa caminhando entre eles.

Havia no percurso  centenas de ônibus fretados pelos fiéis estacionados em fila dupla. E não havia um policial, um agente de trânsito tentando organizar aquela balbúrdia. Aí estava a causa de todo o problema: via bloqueada.

Decorrido duas horas e quarenta minutos cheguei  ao serviço.

Me pergunto : quem foram os responsáveis  por esse caos? Os motoristas dos ônibus que trouxeram os fiéis e pararam em fila dupla em plena rodovia? A Igreja que esperava um determinado  número de pessoas e veio o triplo?

Quem foram os incompetentes? A Prefeitura de Guarulhos que não  se preparou? A polícia rodoviária que não coibiu os abusos?

Quem será responsabilizado pelos atrasos no serviço? Pelos voos perdidos? Pelas taxas extras cobradas ? Pelos sonhos e objetivos desfeitos?

O que ficou escancarado para mim foi: primeiro, o desrespeito total das autoridades e dos membros da igreja pelo ser humano e pelo cidadão. Segundo, um grave problema de infraestrutura. Fala-se muito em privatização de aeroportos como solução final para o caos aéreo. Na minha opinião pode-se construir dez pistas de pouso, vinte terminais, cinco  trens-balas,  porém o aeroporto internacional “André Franco Montoro”  possui um grande gargalo que não vi nenhum especialista mencionar . Só existe uma única via de acesso. A rodovia Hélio Smidt. Tanto faz se você vem pela  Dutra ou pela  Ayrton Senna todas caem nesta rodovia. Basta então,  um acidente, como já aconteceu e com os mesmos resultados catastróficos,  um evento,  uma manifestação , uma rebelião em um dos presídios que margeiam a rodovia, uma quebra de carreta transportando equipamentos pesados para o começar o tormento. Não há alternativa.  Claro que para os administradores  a lei de Murphy não existe. Na copa de 2014 isso, com certeza, não vai acontecer.

Pra finalizar. Não sei se foi graças à vontade divina que o caos se instalou, mas sei que foi graças ao louvor ao divino que o caos se instalou.