A inocência e a “A Inocência dos Mulçumanos”.

“Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem” – Carlos Drummond de Andrade.

O filme “A Inocência dos Mulçumanos” é um insulto ao profeta Maomé e ao Islã. E Apenas isso. Não é artístico. O roteiro é péssimo. Atores medíocres. Cheio de clichês. E se a intenção foi fazer graça, passou longe. De um diletantismo que chega a chocar.

Em certos aspectos recorda, me desculpe a turma do “Casseta e Planeta”, o quadro “No cafofo do Osama”.  Evidentemente que sem a sutileza, a graça, o profissionalismo e o objetivo do programa humorístico.

Montagem simplória que poderia muito bem ter sido feita por pessoas inconsequentes que, deslumbrados com a própria condição social, se achando muito engraçados e acima do bem e do mal, falam o que bem entendem e agem com prepotência.

O filme é tão carregado de ódio, preconceito e racismo que mesmo quem não conhece a língua inglesa entende perfeitamente a mensagem.  Maomé, para o diretor, é um aproveitador, pedófilo, assassino e mau caráter. E que Cadija, sua mulher, é a verdadeira guia espiritual do islã.

O que se poderia esperar, então, diante dessa ofensa explicita aos mulçumanos? No mínimo revolta e repúdio. Do povo. E foi o que aconteceu. Pois, governantes e clérigos, até agora, não se manifestaram. Ou melhor, a secretária de estado Hillary Clinton, apesar de achar repugnante o filme, disse: que nos Estados Unidos “pessoas que expressam seus pontos de vista não são presas”.  Ou seja, não esperem nada do governo norte americano.  Dois pesos, duas medidas. Vários árabes ou descendentes foram detidos neste país somente por emitir, ou não, seu ponto de vista. Tolerância zero.

Bem, quando o dueto “omissão e intromissão” são usados ao bel prazer, e exclusivamente, pelos norte-americanos o ódio explode. E se transforma em violência. Resultado: embaixadas depredadas. Mortes. Inclusive do embaixador americano na Líbia, Chris Steven.  A fúria se espalha pelo mundo árabe.

Alguns ainda acreditam que os árabes exageram. Será? Experimente trocar a palavra Maomé por Jesus Cristo, islã por cristianismo e mulçumanos por cristãos neste artigo. Ou, assista ao filme imaginando essas trocas de nomes propostas. Qual a sua sensação ou desculpa?

Por nada de ofensa já tivemos verdadeiras expressões artísticas proibidas no Brasil. “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, proibido em 1985. Joãosinho Trinta, no desfile carnavalesco de 1989, teve seu Cristo crucificado proibido.

Agora, resta saber o que os autores pretendiam? Que os mulçumanos desistissem de sua religião? São quinze séculos de amadurecimento, de discussões, de estudos e crenças. O profeta sublimou. Ele é a síntese de diversos valores. Extrapolou a compreensão humana. Não há como atingi-lo ou transfigurá-lo. Não será essa trupe a desacreditá-lo.  Nem outra. Não somos o ápice da intelligentsia.

Pretendiam provocá-los? Conseguiram. Então ponham as várias mortes e depredações na conta dos produtores do filme.

Queriam provar que os islâmicos são inocentes na sua crença? Erraram. De inocente eles não têm nada. Sabem exatamente quem são os culpados de seus dissabores e medos. Quem tenta, de todas as formas, submetê-los. Quem os humilha, mesmo quando se mostram amigos.

Querem mostrar que também são ultrarradicais? Conseguiram. E, como qualquer atitude ultrarradical ela se mostra desastrosa. E estúpida.

E, como senão bastasse, para por mais lenha na fogueira, a revista francesa Charlie Hebdo publicou na capa uma charge sobre Maomé.  Aliás, mais uma. Editor oportunista. Ícone do capitalismo. Aproveitou o momento para alavancar as vendas. Por conta disso a França resolveu fechar suas representações em alguns países. Teme a onda de protestos.

Como se pode ver: a inocência está morta e enterrada. Há muitos anos. Infelizmente.

Anúncios

Qual a sua opinião?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s