Lula, o visionário, e o aumento do número de ausentes nas eleições.

Após dois meses de campanha para prefeito o Brasil volta à sua normalidade. Não houve grandes surpresas no pleito. Os eleitores, de um modo geral, mostram sua insatisfação com a maioria das administrações. Preferindo o novo.

Um destaque. Em Salvador, Jaques Wagner foi o único governador do nordeste que não fez o prefeito. Seu candidato perdeu para ACM Neto. Que, apesar de tenra idade, representa o que de mais retrógrado existe em política. O “carlismo” respira novamente. O velho ganhou.

O grande vitorioso desta eleição foi o PT. Não em números absolutos. Porém, venceu um clássico. No estádio do adversário.  Derrotou o PSDB dentro do seu maior reduto, São Paulo.

Foi uma dessas vitórias em que Lula se consagrou como técnico. Indicou e apostou suas fichas em Fernando Haddad. Um novato. Ele começou com 3% de intenções de votos e terminou eleito com 55%.

O grande mérito do ex-presidente foi ter percebido que as pessoas querem a renovação. Não a mesmice. Claro, não é apenas a novo que garante a vitória. A incompetência e o desleixo do antecessor ajudam bastante.  Kassab contribuiu com louvor para a derrota do PSDB. Porém, caso Marta Suplicy tivesse saído como candidata dificilmente derrotaria Serra. Seria outra história.

Essa percepção diferencia Lula dos demais políticos. E faz escola. Fernando Henrique Cardoso, em entrevista logo após o resultado da eleição, declarou que a população mostrou nesta eleição que deseja o novo. Que anseia por ideias inovadoras e etc. Conclama ainda o partido a refletir sobre essa postura do eleitorado. Sem descartar os antigos líderes. Estes serviriam para “puxar” os que estão chegando. Aécio Neves assina embaixo.

Pena que FHC não tenha visto isso antes. Agora fica como lição. Dada por um simples operário.

A mídia é outro capítulo aparte. Deu os resultados esforçando-se para mostrar uma imparcialidade e frieza diante dos fatos.  Mecanicamente foi proferindo as porcentagens.

No entanto, não aguentaram muito tempo. Nas análises finais ficaram batendo na tecla da abstenção. 19% não votaram.

Deram em destaque um pronunciamento da presidenta do TSE, Cármen Lúcia: “Relativamente, a abstenção teve aumento. Como passou de 19%, cabe agora aos órgãos, tanto da Justiça Eleitoral quanto especialistas, cientistas políticos, analisarem. É, sim, preocupante qualquer aumento. Toda abstenção não é boa porque significa que a representatividade – e quanto maior a presença é ganho – pode ser questionada“, afirmou a ministra.

Não tem jeito essa turma. Eles não dão o braço a torcer.  O que pretendem?  Desqualificar os eleitos que não fazem parte de seu balaio? Mostra que o povo não sabe votar? Que os vitoriosos não são dignos representantes? Que a “massa” não obedece mais como antigamente?

O voto no Brasil é obrigatório. Não deveria ser. Se 19% não quiseram votar qual o problema? Justifica-se e acabou.

Não criem tempestade em copo d´água.

Para ajudar, ficam aqui registradas algumas sugestões para as possíveis causas da ausência.

Aumentou o poder aquisitivo do cidadão. Ele preferiu ir descansar em outras bandas.

O cidadão não acredita nos candidatos do segundo turno. Em vez de anular. Não comparece.

Ele é um indeciso. Não sabe em quem votar. Então, para que comparecer?

Não acredita nos políticos. Não quer dar aval a futuras bandalheiras.

Como disse o senador Álvaro Dias: o eleitor não uniu o candidato ao partido. Ou seja, o mensalão não surtiu o efeito desejado. Pior senador o eleitor ligou o mensalão a todos os partidos. Por isso não compareceu.

Qualquer que seja o motivo da ausência é um posicionamento político. O homem é um animal político, como disse Aristóteles.

Esses números não abalam a democracia. A não ser que a impressa esteja tramando um golpe. STF neles, imediatamente.

José Serra em mais um trololó.

José Serra, em entrevista à rádio CBN, disse o seguinte, quando questionado por um ouvinte qual a sua proposta para inibir o uso de drogas e a violência entre os adolescentes nas escolas: “vamos combater, em parte, com prevenção. Temos um programa feito, conjuntamente com a fundação CASA, antiga FEBEM, para atuar com os jovens que estão dentro das escolas e que ainda não entraram no mundo do crime, mas que podem ter propensão para isso, então vamos fazer um trabalho preventivo que é identificar quem tem o potencial par ir para o crime ou para droga e poder fazer um trabalho de acompanhamento… estás são medidas preventivas”.

Eis uma resposta típica do Serra. Racista, classista e preconceituosa.

Conforme o dicionário, propensão significa: inclinação ou vocação. Exemplificando: ele tem vocação para aquilo, ela tem inclinação para isso.

Se trocarmos o “aquilo” e “isso” por medicina e engenharia, respectivamente, teríamos: ele tem vocação para a medicina, ela tem inclinação para a engenharia. Qual pai ou mãe não ficaria orgulhoso do seu filho ou filha? Visto que é algo intrínseco à personalidade deles. Independe da influência da família. Creio que todos os pais ficariam extasiados.

Voltando ao pronunciamento do candidato. Troquemos agora o “aquilo” e o “isso” por crime e drogas. Ele tem vocação para o crime, ela tem inclinação para as drogas. Como explicar este fato aos pais, à sociedade? Seu filho é propenso ao crime. Sua Filha é propensa ao uso de drogas ilícitas. Não parece estranho?

Agora, os especialistas que irão atestar está propensão e aplicar medidas preventivas pertencem à fundação CASA, antiga FEBEM, cuja visão é a de “Tornar-se referência no atendimento ao adolescente autor de ato infracional, pautando-se na humanização, personalização e descentralização na execução das medidas socioeducativas, na uniformidade, controle e avaliação das ações e na valorização do servidor” (o grifo é meu).

Consequentemente, com este raciocínio, José Serra está criminalizando o aluno no qual descobriram o potencial. Segundo a visão de Serra, o adolescente ainda não cometeu delito, mas, irá. Então teremos que prevenir.

Mas não basta apenas descobrir o futuro delinquente. Estes funcionários terão que responder a algumas perguntas.

Eles dirão, também, para qual tipo de crime o adolescente tem maior tendência?

E será adotada uma escala para classificá-los?

10, para os que irão roubar e matar. 7, para os que roubarão.  4, para os que apenas darão um tapa no baseado.  Claro que nada impede a interpolação de valores neste escalímetro criminal.

Bem, a partir do laudo da fundação CASA, qual o próximo passo a ser dado? Internar o criminoso em potencial? Retirar do convívio social? Criar escolas especiais? Estampar figuras amarelas na roupa?

Ou será que o candidato do PSDB irá adotar velhas e obsoletas teorias de segregação? Tamanho da testa. Da orelha. Cor da pele. Cor dos olhos. Tamanho das mãos.  Soma, divide, subtrai. Conclusão: o sujeito será um criminoso.

Se for assim, sugiro ler um dos manuais escravistas intitulado “Ensaio sobre o fabrico do açúcar” de Miguel Calmon du Pin e Almeida. No capítulo intitulado “Bom tratamento dos escravos” o autor ensina como extrair o máximo de produtividade do cativo e como mantê-los afastados da criminalidade. São apenas sete pontos. O ideal do neoliberal.

Outra coisa. O ouvinte, quando da pergunta, não fez referência ao tipo de escola, se pública ou privada. Então, é de se concluir que Serra, preventivamente, fará o mesmo nas escolas particulares de São Paulo.

Pergunto: os servidores, da antiga FEBEM, irão atuar também dentro destes colégios para identificar potenciais criminosos? Nada mais justo se assim procederem. Pois, conforme o noticiário, aumentou, e muito, o número de usuários de drogas e de adolescentes infratores nas classes mais abastadas.

Dante Alighieri, Bandeirantes, Porto Seguro, Pio XII, Miguel de Cervantes, Humboldt, Mackenzie, Pueri Domus preparem-se: o democrata chegou.

É de se lastimar, mas esta não foi a única vez que o candidato mostrou a sua verdadeira face.

Em eleições anteriores ele creditou o mau desempenho das escolas públicas de São Paulo aos imigrantes. O ensino paulista era perfeito, o que atrapalhava o rendimento eram os nordestinos que vinham estudar por essas bandas. Algo parecido com o discurso que propalam atualmente algumas pessoas que são contra as cotas em universidades.

Infelizmente José Serra não está sozinho neste cenário alicerçado no tripé: preconceito, racismo e ódio. Ele é um digno representante de uma parte de nossa sociedade. Se não a mais numerosa, com certeza a mais poderosa.

Quando candidato a presidente sua esposa, Mônica Serra, culpou o programa Bolsa-Família pela dificuldade em se contratar empregada doméstica.

Fernando Henrique Cardoso chamou os aposentados de vagabundos.

Edson de Godoy Bueno, fundador da operadora de planos Amil disse recentemente: “Está cheio de aposentados hipocondríacos que não têm o que fazer e vão ao centro médico tomar café e passar por consulta”. Justificando a própria incompetência.

Tristes humanos esses. O que fazer para mudar este quadro?

Boas eleições.

Mensalão e o tribunal de exceção.

Até o início do século XX a confissão era considerada a rainha das provas.  Na idade média usava-se e abusava-se da tortura para se conseguir a declaração de culpa.  No mesmo período havia um teste interessante, exclusiva para mulheres acusadas de praticar feitiçaria. Jogava-se a dita cuja com uma pedra presa nos calcanhares no rio, se flutuasse seria considerada bruxa. Fogueira nela. Se permanecesse submersa, inocente. Ou seja, o nosso conhecido ditado: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

Bem, após várias revoluções. E algumas centenas de anos. Chegamos a um estágio de desenvolvimento que a tal “rainha das provas” não se fez mais necessário.  Com métodos científicos podemos descobrir a autoria de vários crimes. Com escutas e câmeras é possível gravar cenas de atos ilícitos dos mais variados.  Corrupção. Assassinatos. Roubos. Pedofilia e etc.

A humanidade, graças à ciência, atingiu o ápice da civilização. Ou teria atingido. Não mais tortura e barbárie. Sim, tecnologia e astúcia. Sem respaldo não há condenação. E não adiantar vir com declaração de culpabilidade. É inocente até que se prove o contrário.

Para a sociedade, até certo ponto, se tornou frustrante essas exigência de provas cabais.  Muitos casos ficaram impunes devido a essas exigências. O chamado “crime de rua Cuba”, por exemplo, em São Paulo, ficou tristemente famoso. Um casal foi assassinado em casa. Os investigadores chegaram à conclusão que só poderia ser o filho. Porém, não conseguiram provar. O garoto de então é hoje um advogado. Foi até orador da turma de formandos.

E, não é só em fatos pontuais que há uma indignação generalizada. Muitos dos chamados “crimes do colarinho branco” causam mais espanto pela falta de punição.

O cidadão comum, leigo nesses trâmites jurídicos, não consegue entender como o sujeito fica solto se todo mundo sabe que foi ele o autor do crime. Onde estão as provas? É a democracia. É o estado de direito. São as regras. São as leis.

No entanto nos últimos cem anos houve rupturas ao jogo civilizatório. No Brasil a ditadura militar voltou à velha prática de tortura com os suspeitos de ser contra o regime.  Não precisamos de provas, precisamos de deleção e de confissão, diziam.

Em outro texto escrevi sobre um garoto, menor de idade, preso pelo aparelho repressor. Eles precisavam dar lastro para mantê-lo detido. Chamaram um conceituado psiquiatra que atestou. É menor de idade, mas com idade mental de adulto. Não sei que fim levou o rapaz.

Bem, isso era porque vivíamos num período de exceção. Agora estamos num estado democrático. Ou estávamos.

Com os rumos que o julgamento do chamado mensalão tomou já começo duvidar se vivemos numa democracia. E se há realmente a exigência de provas para condenar os acusados.

Os ministros usaram frases que deixaria qualquer saudosista da ditadura contente. É plausível. É óbvio. É lógico. Não há como duvidar.

Não contente o presidente do Supremo deduziu que haveria um golpe de estado. O PT iria se perpetuar no poder. Quebrando as regras.

Se for assim já tivemos o tal golpe.  E foi perpetrado por Fernando Henrique Cardoso. Ele comprou o congresso para aprovar a reeleição.  Porém escrevendo assim posso sofrer um processo. E… ter que provar o que digo. Não é uma incoerência?

Bom, depois desse julgamento pelo jeito as provas foram relegadas a um segundo ou terceiro plano.  O juiz tem o supremíssimo poder de entender ou deduzir o que bem quiser.

Voltamos ao regime de exceção. Os meninos classe média alta puseram fogo no índio. É lógico que eles estavam brincando, não queriam matar. Pode soltá-los.

Prenderam um negro pobre correndo. É obvio que estava roubando. Fundação Casa para o moleque. Detiveram cinco “riquinhos” batendo numa mulher, de madrugada. É plausível que eles tenham confundido ela com uma prostituta e ladra. Pode soltá-los e agraciá-los com medalha de honra. O jornalista acusou tal político de corrupção. Não há como duvidar que ele tem interesses escusos.  Multa de tantos milhões.

Coitado de nós, pobres e desprotegidos economicamente, se formos algum dia a julgamento.

Por isso que este tribunal de exceção é perigoso para a democracia.  A nação só perde com o comportamento sem nexo desses senhores.

Atentado contra jovem paquistanesa e ativista.

Malala Yousafzai é uma menina paquistanesa de 14 anos. Em 2009, com 11 anos de idade e incentivado pelo seu pai Ziauddin, professor de uma escola particular, criou um blog descrevendo como é viver sob as regras dos talibãs. Já com essa idade falava inglês. O blog desde o início foi publicado pela BBC, Urdu.
Ela nasceu na cidade de Mingora, noroeste do Paquistão.  Região dominada pelo grupo fundamentalista. Entre outras proibições, a de que mulheres não podiam estudar deu origem ao seu diário digital. Até 2008 os talibãs tinham destruído cerca de 150 escolas.

Talibã quer dizer estudante. São discentes da doutrina Islã. Seus colégios são chamadas de masdras.  Radicais e nacionalistas. Majoritariamente da etnia pashtun. Com a invasão do Afeganistão pela União Soviética em 1978 os talibãs se destacaram pelo combate ao invasor. E, como não poderia deixar de ser, foram treinados e armados pelos norte-americanos. Leia-se CIA.

E, assim como Saddam Hussein, Osama Bin Laden e tantos outros, a criatura se virou contra o criador. Em 1996 tomaram o poder. Estabeleceram o estado teocrático, com leis extremistas. Mulheres não poderiam sair desacompanhadas de um homem. O homem não poderia se barbear. As mulheres não poderiam fazer compras. A idolatria era repudiada. Por isso, dois budas, patrimônios da humanidade, esculpidos nas montanhas foram explodidos. Um de 38m e 1800 anos e outro de 52m de 1500 anos. E elegeram como o grande satã os EUA e seus aliados.

Com o atentado de setembro de 2001 os talibãs foram acusados de dar abrigo a Bin Laden.  O país foi invadido, dessa vez pelos americanos, e seu governo derrubado. E a guerra, como sabemos, continua até os dias atuais.

E foi nesse cenário de luta que uma menina escreveu um blog. Ela relatava o que é viver sob o domínio do Talibã. Seus medos e chateações.

O pai dela e a BBC, sabedores do risco que a criança corria, tomaram uma simplória providência para garantir sua segurança: usaram o pseudônimo de Gul Makai para mantê-la no anonimato.

Disse Ziauddin: “É claro, que era um risco [deixá-la escrever o blog]”, à BBC em janeiro deste ano, “Mas eu acho que não falar era um risco maior do que isso, porque, em última análise, teríamos sucumbido à escravidão e a subjugação ao terrorismo cruel e extremista”.

Óbvio que rapidamente sua verdadeira identidade foi descoberta. Não foi nada difícil. Ela deu entrevista para diversos canais de comunicação. Foi condecorada pelo governo paquistanês.  Teve seu perfil  estampado no facebook. Ficou famosa.

Foi elevada, pelos inimigos dos talibãs, à condição de grande representante da liberdade contra a opressão. Contra o fanatismo. Contra o radicalismo religioso.

Mulala reportava os acontecimentos, como qualquer adolescente que mantém um diário, descrevendo a realidade ao seu redor.

Em certa ocasião publicou o seguinte:

“Eu tive um sonho terrível ontem com helicópteros militares e os talibãs. Tive esses sonhos desde o lançamento da operação militar em Swat. Fiquei com medo de ir à escola porque o Talibã emitiu um decreto proibindo todas as meninas de frequentar escolas. Só 11 alunos participaram da aula de 27. O número diminuiu devido ao decreto do Taleban.

No meu caminho da escola para casa, eu ouvi um homem dizer “eu vou te matar ‘. Apressei o meu passo…  mas, para meu alívio, percebi que ele estava falando em seu celular e devia estar ameaçando alguém pelo telefone.”

Em 14 de janeiro de 2009 relatou: “Eu estava de mau humor, indo para a escola, porque as férias de inverno começam amanhã. O diretor anunciou as férias, mas não mencionou a data que a escola reabrira.

As meninas não ficaram muito entusiasmadas com as férias porque eles sabiam que o Taliban implementado o seu decreto [que proíbe a educação de meninas] elas não poderiam ir para a escola de novo. Eu sou da opinião de que a escola um dia vai reabrir, mas, saindo de lá, eu olhei para o prédio como se nunca mais fosse vê-lo. “

O grande mérito de Malala foi verbalizar o descontentamento em relação às leis de submissão. Mais do que coragem ela mostrou indignação. Mais do que ódio, amor.

Conforme um integrante do talibã: “Ela costumava fazer propaganda contra os mujahedin (guerreiros sagrados) para difamar o Talibã. A sharia (lei islâmica) diz que até crianças podem ser mortas se fizerem propaganda contra o islã”.

Não há a tal propaganda. Em nenhum momento do blog ela usa palavras como: bandidos, fanáticos, cruéis, atrozes, opressores, inimigos. Estes substantivos e adjetivos são comumente usados por autoridades governamentais, por jornalistas e por maníacos de outras religiões. Geralmente pessoas longe do conflito. No entanto, puseram essas palavras em sua boca. Por interesse escusos, ela foi usada de maneira vil. Virou, então, alvo do grupo.

Pergunto: será que Yousafzai tinha a real dimensão da realidade ao seu redor? Será que ela sabia que estava num meio de uma guerra? E que essa guerra não é travada entre exércitos convencionais? Que o inimigo pode estar ao seu lado?  Que eles não usam uniformes? Que a possibilidade de morte existe e é uma constante? Ela foi avisada?

Seu pai, por ser um ativista, sabia. Os jornalistas com certeza conheciam o terreno perigoso que essa menina pisava. As autoridades também sabiam do risco. E, por que não tomaram providências para protegê-la? Ela era uma voz que lutava por direitos básicos. Contra a discriminação. A única!!

Então, deu no que deu. Sofreu um atentado. Um homem invadiu a “van” escolar. Perguntou quem era Malala. Sou eu, respondeu. Levou dois tiros.  Outras duas meninas foram atingidas.

Agora, está num hospital da Inglaterra lutando pela vida. E, novamente, está sendo usada por inescrupulosos para justificar a continuidade da guerra e de seus mortos.  E aumentar o preconceito contra os mulçumanos.

Será que eles desejavam que essa criança se transformasse numa mártir?

E as outras duas vítimas? Será que estão bem?

E a guerra continua…

Os EUA aprontam e quem pago o pato somos nós.

Os Estados Unidos, como bom império que é, já nos impingiram muitas coisas. Não há uma área onde o grande irmão não faça sombra. Como um animal de caça está sempre atento a qualquer movimento. Suas garras afiadas estão sempre dispostas a segurar e dilacerar energicamente sua presa. A presença “yankee” e atuação se fazem em todas as áreas e classes sociais.

Fast-food e a Coca-Cola. Roupas, brinquedos, carros, armas, eletrônicos, cosméticos, cigarros, chapéus, transgênicos.

Filmes, gírias, músicas, teatros. Ídolos e danças. Desenhos e super-heróis. Remédios, estimulantes, energéticos.

Empresas. Padrões. Gestão. Relacionamento. Profissional e pessoal. Trabalho.

Esportes e culto ao corpo. Ciência e escolas. Filosofia e objetivos. Beleza e feiura. Comportamento e educação.  Odores e cheiros.

Se apoderam de pesquisas. Plantas. De cabeças. De animais. Somos também americanos. Mas não somos. Nos tiraram esse nome. Americanos são unicamente eles. Somos sul-americanos. Se quisermos.

Sonhos.  Disneylândia.  Broadway. New York. Califórnia. Rota 66.

Derruba governo.  Impõem governantes. Dita política e diz o que é liberdade. O que é tortura. “American way of life”. Corrupto. Corruptor.

Etnocêntrico. Megalomaníaco. Perturbado. Doido. Esclerosado. Triste. Acabrunhado. Materialista. Metafísico.

Forte com os fracos. Não há fortes. Não há obstáculos. Perdulário. Econômico. Com os outros.

Interesseiro. Bisbilhoteiro. Intrigueiro. CIA. Tortura. Medo. Companheiro sem companhia.

Nomes de ruas.  De praça. De Prédio. De bairros. De cidades. De reservas indígenas. Roosevelt. JFK. Nova York

Desconto não é “desc” é Off.  De graça é free. Bicho de estimação é pet. Adolescente é teen. Meu Deus. My god.

Se metem em tudo. Mesmo não sendo chamado. Exportam bizarrices. Crises. Doenças. Ódio.

Adoram jogar bombas nas cabeças dos outros. Estimulam vinganças. Atendados. 11 de setembro.

Se previnem de futuros atos de terrorismo. Não basta fiscalizar seu território. Outros países são obrigados a serem mais rígidos com a segurança, deles. Fazem de tudo.

Tríplice fronteira. Argentina. Brasil. Paraguai. Colônias de árabes. Doam equipamentos de segurança para os aeroportos.

E por causa dos norte-americanos eu, cidadão brasileiro, país sem problemas com nenhuma outra nação, tive que contribuir para segurança do império. Não voluntariamente. Indignadamente. Se quisesse viajar de avião para outra cidade do Brasil teria que tirar o cinto, do meu jeans. Meu surrado cinto era perigoso para os EUA. Dominador e dominado.

Como dizia um personagem de Érico Veríssimo na obra “O tempo e o Vento”: mundo velho sem porteira. Mas com fiscalização.

Virada eleitoral em SP.

A virada mais surpreendente das eleições para prefeito aconteceu em São Paulo. O protagonista dessa façanha foi o candidato do PRB, Celso Russomano.

Líder das pesquisas por semanas na reta final despencou de 35% de intenção de votos para 21%. Uma queda de 14%. Não é para qualquer um. Ficou em terceiro lugar. Fora do segundo turno.

O que leva a pensar, num primeiro momento, que algo de extremamente reprovável tenha sido descoberto. Algo do tipo que aconteceu com o Lula, quando da primeira disputa pra presidente.  Collor denunciou que ele possuía uma filha fora do casamento. Que propôs aborto e etc. A sociedade ficou horrorizada com essa revelação.  Naquela época, década de 90, isso não acontecia. Casais só tinham filhos depois do matrimônio. Ninguém traía. Não havia pecado debaixo do equador, como dizia aquela música interpretada por Ney Matogrosso. Bem, hipocrisia à parte. Esta descoberta desestabilizou e derrubou o Lula. Será então que a historia havia se repetido? Que um fato novo sobre o candidato do PRB foi revelado? A resposta é não! Nada de anormal tinha vindo à tona. Então o que pode ter ocorrido para está queda vertiginosa?

Analisemos. No início da disputa Fernando Haddad era pouco conhecido pela maioria dos paulistanos, notadamente pelos moradores da periferia. Serra sempre teve alto índice de rejeição, 45%.  Russomano, ao contrário, já era rosto conhecido e representava o novo. A mudança. Era previsível que as pessoas optassem por votar nele. Não havia outro.  Mas aos poucos o candidato do PT foi se apresentando. E mais, com o apoio do Lula e da presidenta Dilma houve uma transferência das intenções de voto quase que automática. Do Russomano para o Fernando.  Porém, neste caso, teríamos que acreditar que o povo de São Paulo é muito volúvel. Muda rapidamente de voto. Dorme com o Celso e acorda com o Haddad. Não acredito apenas nessa hipótese porque os outros candidatos foram crescendo suavemente. A queda dele foi abrupta.

Outra explicação.  A assessoria de Celso Russomano cometeu erros crassos. Não apresentou nenhum projeto de governo. O discurso era vazio. Nada de novo foi apresentado. Era a mesmice em pessoa. O coordenador da campanha era um “laranja”. Apenas copiava planos alheios. A assessoria não rebatia de forma inteligente as agressões por parte dos outros candidatos. E o supremo deslize. Ficou claro que ele estava do lado dos ricos quando propôs que a cobrança da passagem de ônibus fosse diferenciada. Quanto maior a distância maior o valor a ser cobrado. Lógico que quem morasse em bairros mais longínquos gastaria mais com o transporte. E quem mora mais distante do centro? O pobre, é claro. Justamente aqueles que ganham menos iriam pagar mais. Vai entender. No entanto, por ser pontual, ele facilmente rebateria este paradoxo.

Dessa reflexão acima pode estar a outra causa da queda livre. O PRB é um partido pequeno. Sem experiência. Sem medalhões. Sem expressão no cenário político. E, principalmente, com pouco tempo de televisão. Praticamente todos os candidatos com chance bateram no Russomano. Sua equipe não teve criatividade suficiente para usar bem os poucos minutos de propaganda. Lembram-se do Enéas? 15 segundos foram suficientes para angariar votos.

Mais um fator dessa decaída pode ter sido o religioso. A base do PRB era num dos templos da IURD. Seus assessores mais diretos eram pastores da IURD. Ele entrou em desavença com o arcebispo de São Paulo Dom Odilo Scherer.  Foi criticado por sua postura mais evangélica, apesar de se declarar católico. Celso, em protesto, não compareceu a um debate promovido pela igreja. Perdeu uma grande oportunidade de rebater várias acusações. De dar explicações ao público de suas recentes atitudes. Mostrou, mais uma vez inexperiência. Falta de jogo-de-cintura. Foi pretensioso demais.  Incorreu, em certos aspectos, no mesmo erro de FHC. Este, quando candidato à prefeitura tirou foto sentado na cadeira do prefeito, antes da eleição. E deu no que deu, Jânio Quadros ganhou. O político, num regime democrático, tem que aprender a conviver com a crítica. É inerente à função.

Outro aspecto para essa virada pode ter sido a manipulação dos resultados da pesquisa pela  mídia em conluio com os institutos responsáveis pelas amostragens, notadamente o IBOPE. Talvez Celso Russomano  no começo  tenha despontado como primeiro colocado. Caindo logo em seguida. Porém, seria de interesse da ala reacionária da sociedade que  ele fosse mantido como líder durante a campanha. Artificialmente, diga-se. É de se concluir, portanto, que quando “especialistas”, há várias semanas, vinham tecendo comentários a respeito do candidato do PRB, chamando-o de cavalo paraguaio, de garoto champanhe. Comparando sua candidatura a uma bolha de sabão e etc. Já sabiam que ele não era o verdadeiro líder. As opiniões pareciam mais um aviso do que uma colocação. E, para o cidadão comum ele continuava com 35% de intenção de votos. Se para muitos parece um absurdo essa minha observação pergunto: qual jornalista, comentarista ou cientista político colocaria sua credibilidade em jogo afirmando, categoricamente, que Russomano não passava de um blefe, caso não tivessem outra informação? É arriscar demais a reputação. Concordam?

Bem, aparentemente os institutos só mostraram os dados reais nos últimos dias. Celso na verdade nunca foi líder. Nunca esteve no patamar mostrado na mídia. Os gráficos não refletiam a opinião pública. Era, isso sim, a opinião publicada, como bem disse Paulo Moreira Leite. Mas,então, qual seria o objetivo desse ardil? Logicamente garantir Serra no segundo turno.

Se Russomano estivesse realmente em primeiro, com a vantagem que tinha, somado com o índice de rejeição de José Serra, Haddad seria o segundo colocado fatalmente. Estaríamos,agora, com PRB X PT. E, talvez, Chalita chegasse em terceiro. E Soninha ficasse com seus 4%. Seria uma derrota catastrófica para as pretensões futuras de José Serra. Do PSDB. E um duro golpe para a elite.

Continuando. Os eleitores, diante desse novo cenário, ou seja Russomano não era mais o primeiro colocado, ficaram aturdidos. Com pouco tempo que restava, assustados e perdidos, muitos decidiram pelo chamado voto útil. Votos que iriam para outros partidos foram deslocados para o PT e para o PSDB. Por aversão a um ou ao outro.  Esta é a explicação mais plausível que encontro para a “queda” acelerada do líder. Nós, eleitores de São Paulo, fomos vítimas de uma manipulação vil. As pesquisas não passaram de um embuste.

Os institutos precisam, de qualquer forma, mostrar qual a metodologia usada na apuração dos dados. Por que, como alguém pode ter a imagem tão rapidamente desconstruída sem ter nenhum fato relevante a desaboná-lo? Sem um escândalo se quer? Para o bem da democracia, esses institutos precisam ser investigados.

Lenda, PCC e o governador Geraldo Alckmin.

“Diz a lenda que…” é uma expressão muito usada quando surge uma notícia e as pessoas, como São Tomé, só acreditam vendo. Acham que nada vai acontecer. Pois, foi com uma frase como essa que  Geraldo Alckmin se referiu ao crime organizado, mais propriamente ao PCC. Ele acha que essa associação é de faz-de-conta. Até que se prove o contrário.

Há 6 anos atrás, em maio de 2006 o estado de São Paulo viveu momentos de terror.  Membros do Primeiro Comando da Capital cometeram vários atentados durante uma semana. Na ocasião, foram assassinados policiais, civis e militares, agentes penitenciários, cidadãos comuns e ônibus foram incendiados. Em uma cena inusitada a televisão mostrou bombeiros armados e caminhões obstruindo o portão de entrada da guarnição. A população perplexa, desprotegida, ficou acuada diante dessas  ações violentas.

As viaturas da PM passaram a andar com três policiais. Um dos militares vigiava os carros que vinham atrás. Percebia-se claramente, pelo olhar do policial, o medo e o momento de tensão que passavam. E a sede de vingança.  A abordagem era extremamente perigosa.

Os agentes ficaram  indignados com a atitude dos seus superiores quando souberam que o secretário da segurança, juntamente com os comandantes e delegados, todos pertencentes ao mais alto escalão, sabiam de antemão que eles seriam vítimas dos ataques e não alertaram a corporação. Sentiram-se traídos. Resultado: muitos morreram sem esboçar reação. Foram pegos de surpresa. Não puderam se prevenir.

E, o que era impensável aconteceu: São Paulo parou. Após quatro dias de violência o pânico tomou conta da cidade.  Às três horas da tarde, de um dia útil, o comércio fechou as portas, repartições públicas dispensaram os funcionários. A indústria liberou os empregados. Interromperam-se as aulas nas escolas e faculdades.  A informação era de que: quem fosse pego, após esse horário, na rua iria ser morto. Estava decretado o estado de sítio na maior cidade da América do Sul.

O governador do estado à época era Cláudio Lembo, Geraldo Alckmin havia renunciado ao cargo para concorrer à presidência. Ele e sua cúpula, como cachorro em mudança, estavam perdidos em frente está situação.  O então ministro Tomás Bastos ofereceu a guarda nacional e as forças armadas para ajudar. O governador dispensou a oferta. Tudo estava sobe controle. Só não disse sobe controle de quem.  Horas mais tarde a mídia noticiou: o governo negociou com o PCC o fim dos ataques. A intermediária na negociação foi a advogada e ex-delegada da Polícia Civil, Iracema Vasciaveo. O governo sucumbiu diante da lenda.

No entanto os atos violentos não terminaram. Apenas mudaram de lado. A polícia começou então sua represália. Muitos suspeitos foram mortos. E, como numa guerra, muitos inocentes também.

Bem, voltando a 2012. Até este momento foram mortos 76 policiais. Em reportagem publicada no estadão, o governo federal  “aumentou o alerta para São Paulo por causa das ações recentes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Um relatório especial feito pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que abastece o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ligado à Presidência da República, mostra que a situação, ruim há alguns meses, tende a se agravar em razão da resposta do grupo às ações das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). O governo de São Paulo nega.”.

Ainda, segundo a reportagem o comando PCC evocou o artigo 18 de seu estatuto. “Vida se paga com vida e sangue se paga com sangue”. Para cada membro da facção morto, um policial deve ser assassinado. A morte do soldado André Peres de Carvalho, do 1.º Batalhão de Choque (Rota), na capital, teria sido recebida  pelo PCC como uma “vitória”.  A morte do “Cabo Bruno”, justiceiro da década de 80, recentemente posto em liberdade,  também foi considerado um troféu.

E o atual secretário da segurança, Antonio Ferreira Pinto, disse que ficou indignado com o relatório. Conforme ele estas “são notícias sem fundamento. A Abin não monitora presídios e não mantém contato com a inteligência do Estado. Não monitora nem as fronteiras para coibir a entrada de armas e drogas.” Ele acusou a agência de, no período pré-eleitoral, servir a interesses político-partidários.

Enquanto ele fica indignado com o documento do governo federal, as famílias dos policiais mortos ficam de luto. Convenhamos, é um sentimento mesquinho do secretário.

A Folha de São Paulo revelou que a polícia apreendeu 400 documentos pertencentes à facção criminosa. Estes arquivos mostram que o PCC está muito organizado.  O Comando possui  1343 “funcionários” na rua. Mais do que soldados da rota. E dispostos a cumprir a cláusula 18.

E o governador diante de todos estes fatos acha que é lenda. Outra vez, como em 2006.

E pensar que tudo começou com o massacre do Carandiru, em 1992. Foram chacinados 111 presos. Consequência desse ato tresloucado: fomos condenados internacionalmente e só isso. Até hoje nenhum policial foi preso. Não houve diminuição da população carcerária. Os crimes não diminuíram. E o PCC se organizou.

A prepotência sempre leva a desastres.  O governo de São Paulo subestima a capacidade de pensar e de se organizar da população. Sejam eles bandidos ou trabalhadores. Quando acontece ficam com aquela expressão de espanto e raiva. É histórica essa soberba. E perigosa.