Despejo dos índios do Museu do Índio.

museu do indioCom a retirada forçada dos índios que habitavam o Museu de mesmo nome, fica claro que quando há interesses econômicos envolvidos no assunto, não existe lei nem poder que impeçam o avanço do mundo civilizado.

Como trator, os interessados arrasam a terra. Apagam a reflexão.  Modificam a paisagem. Destroem a memória.

Mais um pouco da história indígena é apagada.  As gerações futuras ficarão espantadas quando souberem que Maracanã é uma palavra tupi. Semelhante a maraca.  Que chacoalha. E que o estádio recebeu esse nome devido a uma espécie de papagaio. O maracanã-guaçu. Não saberão que aquele lugar um dia abrigou o Museu do Índio.  E pior talvez nem deem mais importância a esse fato. O índio estará excluído da formação cultural do povo brasileiro. Não compreenderão porque é importante a preservação da memória de um povo.

E quem sabe, daqui a décadas, alguma empreiteira, escavando buracos, encontre as antigas fundações deste edifício. Cientistas extasiados irão então recolher algum fragmento.  Descobrirão indícios de que ali já foi o habitat de tribos desconhecidas. Irão estudá-las. Medi-las. Catalogá-las.  E colocaram o resultado do extenuante trabalha num museu. Que ironia. A lembrança do lugar ficará restrita a trabalhos acadêmicos. Que não serão lidos.

Após o anúncio da descoberta deste sítio arqueológico reportagens serão feitas. Entrevistas e palestra serão proferidas, em locais de difícil acesso e repressores para o cidadão comum. Teses de mestrados e doutorados. Ativistas perguntarão: como pessoas daquela época deixaram essa preciosidade histórica desaparecer? Poetas declamarão poesias à perda irreparável. Cantores cantarão as tristezas.

No entanto, esses meus devaneios não teriam razão de ser se as autoridades fossem sensíveis ao problema indígena.

A princípio queriam transformar o lugar num estacionamento. Após pressão da classe artística ,decidiram transformá-lo no museu olímpico, como se o Brasil tivesse tradição nesses jogos.

Seria muito mais atrativo, digno e justo se reativassem o museu. Se a aldeia maracanã fosse oficializada. Se seus habitantes respeitados. Por lá passarão inúmeros estrangeiros. Tanto na copa do mundo, como nos jogos olímpicos. Demonstraríamos ao mundo que mudamos. Que não somos esses genocidas de povos. Que estamos aprendendo com os erros.

Já aconteceu fato parecido na nossa história. No começo do século XX era proibido jogar pretos nos times de futebol, pois os dirigentes da época tinham vergonha de mostrar ao mundo nossa formação. Será que essas autoridades, após quase cem anos, têm o mesmo pensamento? Será que  estão com vergonha também? O mundo mudou. Vergonha foi feita agora.

Como a países europeus, por exemplo, reagirão diante desse evento? Estamos remando contra a maré.

Segundo o Jornal do Brasil, do dia 24/01, “A ministra da Cultura, Marta Suplicy, conversou com o governador em exercício do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, para manifestar a posição do Ministério da Cultura (MinC) a favor da preservação da Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio, prédio datado de 1862, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

A ministra disse que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC) já recomendou ao estado o tombamento do imóvel.

“O Brasil é um país que respeita e valoriza a diversidade. Cada vez mais isto é reconhecido no mundo. Esperamos que prevaleçam o interesse na preservação do patrimônio material e imaterial e a sensibilidade do governo do estado””.

Prevaleceu a ordem de despejo. A rapidez do cumprimento. E o interesse capitalista.

É interessante essa reportagem: “O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Rio (MP-RJ) se juntaram nesta terça-feira para mover uma ação pública com pedido de liminar para que o processo de licitação da concessão do Maracanã, em andamento desde fevereiro, seja suspenso. A alegação é de que o BNDES deve dar um parecer  sobre o estudo de viabilidade financeira. Os órgãos pedem também que o estudo usado como base para promover a licitação seja publicado na internet para conhecimento público. O BNDES emprestou R$ 400 milhões ao governo do Rio como parte do financiamento da obra de adequação do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

Segundo o MPF e o MP-RJ, algumas irregularidades foram encontradas no edital de licitação, como, por exemplo, a falta de justificativa para o valor de investimento de R$ 594 milhões e a outorga no valor mínimo de R$ 4,5 milhões”, conforme jornal o LanceNet.
Leia mais no LANCENET! http://www.lancenet.com.br/minuto/MPs-estadual-suspensao-concessao-Maracana_0_885511492.html#ixzz2OIzW7amt
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Como se pode ver há muita podridão na construção/reforma do Maracanã. Que moral tem estas autoridades para tratar um patrimônio brasileiro com tão pouco caso?

As explicações técnicas/econômicas/antropológicas que respaldaram a retirada dos índios do Museu do índio não são válidas. Quaisquer que sejam. São balelas diante do acontecido. Nada justifica essa amostra grátis de atrocidade contra os povos indígenas.

Onde está a Comissão dos Direitos Humanos e das Minorias numa hora dessas?

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