Monteiro Lobato e o racismo consciente.

Revista Dados 56 nº 1 - Sciel...Em 2010 o cidadão Antônio Gomes da Costa Neto questionou a secretaria da educação do distrito federal sobre a adoção dos livros de Monteiro Lobato. A seu ver, as obras eram racistas. E induziam ao racismo.

E citou as passagens do clássico infantil “Caçadas de Pedrinho”.

Pedrinho pediu à boneca que repetisse a sua conversa com os besouros espiões. Emília repetiu-a, terminando assim:

— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena (Lobato, 2008).

Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros (Lobato, 2008).

Convenhamos dificilmente um escritor de livros infantis, hoje em dia, escreveria dessa forma.  E mais difícil ainda seria conseguir uma editora que resolvesse publicá-lo. Primeiro que há leis duras que combatem esse tipo de abordagem. A obra seria embargada. E senão fosse haveria a indignação da sociedade. Apesar de sermos uma sociedade racista. Mas tão explicito assim, como foi dito por Lobato, seria demais. Conclusão: o livro seria um fracasso. Vendas pífias e processos mil.

Mas estamos falando de uma obra escrita no início do século XX e de um escritor internacionalmente consagrado. Seus livros já foram lidos e relidos por diversas gerações.  Não se pode negar, a obra é de um encantamento excepcional. A criança é estimulada a viajar na imaginação.

E tem outro porém, na década de 20 e 30 as referências jocosas às pessoas de cor preta eram plenamente aceitas. O Brasil estava recém-saído do período escravocrata.

Então, retirar ou não o “Sítio do Pica-Pau Amarelo” da grade escolar?  E afinal, Monteiro Lobato era racista ou apenas retratou uma época?

O debate sobre a questão foi acalorado. Os profissionais ligados à literatura e a história foram contra a proibição de Lobato. A mídia abordou o lado político: é simples patrulhamento ideológico. Monteiro Lobato não era racista. O PT, na verdade, quer impor a censura à livre expressão, travestido de politicamente correto, para a imprensa. O governo, por seu lado, sugere que os professores aproveitem o gancho e trabalhem a questão do racismo com os alunos. E as editoras, por sua vez, coloquem um aviso sobre o cunho racista da obra. E as associações ligadas aos movimentos antirracistas querem sua proibição.

Bem, por aí ficou a discussão. Sem uma conclusão incisiva. O colóquio parecia cair no esquecimento. E tudo ficaria do jeito que era.

Só que recentemente foi publicado um trabalho dos professores João Feres Júnior, Leonardo Fernandes Nascimento, Zena Winona Eisenberg, na revista Dados, UERJ, em março deste ano, no qual eles afirmam: Monteiro Lobato era, sim, racista. “Sítio do Pica-Pau Amarelo” tem cunho racista.  E fazem uma análise da posição da imprensa hegemônica.

No trecho abaixo fica demonstrado  o racismo consciente do autor.

Veremos a seguir que há evidências suficientes para afirmar de maneira qualificada que, ao contrário da opinião de alguns especialistas retratada na mídia, Monteiro Lobato era de fato racista. De passagem, não podemos deixar de mencionar que Lobato foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo e amigo pessoal de expoentes da eugenia no Brasil, como os médicos Renato Kehl (1889-1974) e Arthur Neiva (1880-1943), dados que apenas ilustram sua imagem de adepto fervoroso dos ideais eugênicos10 de melhoramento da raça, refletidos plenamente em seus textos, privados e públicos. Vejamos um trecho de carta endereçada ao médico baiano Arthur Neiva (1880-1943):

Deversos amigos me dizem: porque não escreve suas impressões? E eu respondo: porque é inútil e seria cahir no ridículo. Escrever é apparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exhibir-se deante de uma assistência de moleque feeble-minded e despidos da menor noção de seriedade. Mulatada, em summa. Paiz de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa phrase as duas attitudes. “Nós defendemos o front da raça branca – diz o Sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brazil.” Um dia se fará justiça ao Klux Klan; tivéssemos ahi uma defeza desta ordem, que mantem o negro no seu lugar, e estariamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do gallego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destróe a capacidade constructiva.”

Resta alguma dúvida sobre o posicionamento racista de Monteiro?

Sobre o papel midiático os autores de “Monteiro Lobato e o politicamente correto” citam dados estatísticos e artigos tendenciosos escritos por diversos colunistas sobre o caso.

No final sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja reescrita. Assim como foi : Alexandre Dumas, Herman Melville, Charles Dickens, Mark Twain e o próprio Homero.

No entanto esses autores são estrangeiros e alguns deles não escreveram para o público infantil. Não há uma implicação educacional.

Agora, reescrever Monteiro Lobato é muito mais complicado. Talvez retirar certos parágrafos que fazem alusões pejorativas aos pretos seja o caminho.

-Mentira de Narizinho! Essa negra não é fada nenhuma, nem nunca foi branca. Nasceu preta e ainda mais preta há de morrer. (Lobato, 1946), disse a boneca Emília.

O trabalho é muito completo, vale à pena ler: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582013000100004&lng=pt&nrm=iso

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Uma resposta em “Monteiro Lobato e o racismo consciente.

  1. Não acredito que a solução seja proibir, mutilar ou censurar as obras de Monteiro Lobato. Seria combater o racismo com outro preconceito. São histórias cativantes, cheias de aventuras, que mexem com o imaginário de toda criança. Acho que a leitura de suas histórias necessita de acompanhamento dos pais ou educadores preparados. Lidar com questões complexas como: racismo, escravidão, maus tratos de pessoas e animais…enfim, coisas que precisam ser discutidas e explicadas para o bom entendimento da criança. Se for proibir toda história com teor racista, ficarão poucas obras da literatura brasileira.
    “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos.” MB

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