A procura de pelo em ovo: sobre o crescimento do PIB.

guido mantegaComo foi anunciado, o Produto Interno Bruto brasileiro teve um desempenho acima do esperado. Para felicidade do governo e tristeza dos que apostaram contra.

Desculpe. Tristeza não, pois este é um sentimento que traduz sensibilidade e compreensão para com o outro.  O termo correto é ódio. Ódio a tudo que dá certo e beneficia grande parte da população historicamente esquecida pelos governos.

Afinal, os do contra, apesar de trabalharem exaustivamente pela instalação do caos no país, são constantemente derrotados pelos dados econômicos.

A imprensa hegemônica, a elite e seus asseclas estão perdendo o senso do ridículo.

Não bastasse dar voz a prefeitos investigados pelos mais diversos crimes no caso do “Mais Médico”.  Leia aqui sobre o caso. Eles dessa vez se superaram no seu plano de espalhar o pânico pelo país.

O artigo reproduzido parcialmente abaixo foi publicado na sitio da Folha de S. Paulo. Seu autor é Reinaldo Gonçalves, professor titular de economia da UFRJ e autor do livro “Desenvolvimento às Avessas”.

Bem analisado temos em mãos em belo exemplo do porque a  Lei de Regulamentação da Mídia precisa sair do papel e se tornar uma realidade. Não pelo que foi escrito. Mas pelo que não foi. Ou seja, um outro especialista criticando o artigo. Com certeza alguém escreverá. Mas poucos lerão, por falta de informação.

Percebam, para não perder a oportunidade de falar mal do governo e municiar seus militantes com meias verdades, este professor recuou aos tempos da proclamação da república. À política do café-com-leite. À convenção de Taubaté. Ao estado novo. Aos tempos da ditadura.

Citou o PIB isolado de uma realidade insistente: o povo na miséria absoluta. Sem oportunidades ou educação. Sem conceito histórico e sem conhecimento social e cultural da formação de uma nação destilou seu pecado.

São essas pessoas, com o perfil deste professor, que tem voz, porque reproduzem a maldade de seus patrões.

Só encontro uma frase para traduzir meu espanto: absurdo dos absurdos. Se não fosse trágico seria cômico.

“Fatos, nada além de fatos. A taxa média anual de crescimento do PIB é 4,5% na era republicana. Nesse período somente dois presidentes são responsáveis por taxas de crescimento do PIB menores do que 2,0%, como média anual do mandato.

Os governos que atingiram a apoteose da mediocridade são: Fernando Collor (-1,3%) e ão Floriano Peixoto (-7,5%). Neste último o desempenho econômico pode ser explicado, em grande medida, pela ruptura institucional e pela crise política. Já a crise política no governo Collor é explicada, principalmente, pelo desempenho econômico medíocre.

No período 2011-14, as taxas de crescimento do PIB são: 2011 = 2,7% e 2012 = 0,9%. Previsões apontam para crescimento da ordem de 2,0% em 2013 e 2014.

Portanto, a taxa média anual deve oscilar em torno de 2,0%.

O fato é: o governo Dilma pode ter o terceiro pior desempenho da história republicana, com 30 presidentes…”.

Fala mal daqui/Fala mal dali/Vive a resmungar/E a se lamentar/Só se realiza quando abre a boca para reclamar…

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Qual o motivo para a não cassação de Donadon?

natanA questão é a seguinte: não cassar um deputado condenado e preso soa tão absurdo que não dá para acreditar. Porem dá para especular.

Este é o problema. Parlamentares vêm sistematicamente levando a pecha de corruptos, vagabundos, quadrilheiros e ladrões (palavras ditas nas manifestações de junho) e aparentemente não estão preocupados com que os eleitores pensam.

Ora, está certo! Muitas das imputações são criadas e exageradas pela mídia, mas não significa que em diversos casos não seja verdade. Certo?

No entanto, o que fizeram, não cassar o mandato de Donadon, só corrobora com a imagem de bandidos.

Como quem participa de política calcula que a compreensão do seu mundo é algo inatingível pelos leigos, sem notar, acaba abrindo uma brecha para que possamos imaginar mil motivos para que eles tenham tido tal comportamento.

Então, vamos à especulação. Partindo do princípio de que no congresso não há ingênuo concluo que eles sabiam exatamente o que estavam fazendo, qual seria a repercussão e quem poderia ser atingido.

Como o voto era secreto, quem votou contra ou favor não será conhecido, a não ser que surja um funcionário e mostre a lista. O que já aconteceu. Não será o caso. Consequentemente esses congressistas, que votaram contra a cassação, estarão protegidos na figura do anônimo.

Bem, há aqueles que não compareceram à sessão. Excetuando o José Genoíno, afastado por problemas de saúde, os demais não justificaram publicamente a ausência na votação ou não tiveram como, portanto entraram na lista dos que apoiam bandidagem. E consequentemente são marginais, também. Evidentemente, neste rol o destaque vai para os deputados pertencentes ao PT. Primeiro motivo: queimar o partido, minando sua imagem para 2014.

Com esta atitude do parlamento os ministros do STF, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes saem fortalecidos. No julgamento do processo 470 houve essa discussão: quem deveria cassar o mandato: o STF ou o congresso.  A constituição diz que é o congresso, Barbosa bateu o pé e afirmou que era o Supremo. Depois disso alguém duvida que o STF tenha todo apoio popular para decretar a cassação dos parlamentares condenado no caso “mensalão”? E sair como o único e grande baluarte da moralidade desta nação. Segundo motivo: Joaquim Barbosa sai fortalecido para, talvez, disputar a presidência.

A oposição votou em peso contra a perda de mandato de Natan Donadon para evitar que os parlamentares envolvidos no “mensalão” não fossem cassados. E com essa ressonância garantir a derrota do Partido dos Trabalhadores nas eleições do ano que vem. Terceiro motivo.

Rabo-preso.  A maioria dos congressistas deve algo. Um por todos e todos por um. Garanto apoio hoje para me apoiarem futuramente em algum processo. Este é o pior tipo de corporativismo. Quarto motivo.

Ou aqueles que votaram pela continuidade do mandato querem propositalmente atiçar a população contra o governo de Dilma. Por quê? Como não há nenhum outro candidato a presidência que tenha condições de vencer a atual presidenta eles simplesmente querem derrubar o governo através de um golpe, com o apoio da população.  A lá Egito ou Paraguai. Golpe Branco. Quinto motivo.

Todos esses motivos pode parecer loucura, porém a razão de fazê-los é por causa do famigerado voto secreto. E da falta de transparência em certas decisões.

A discriminação contra médicos cubanos.

chegada de cubanosEm uma daquelas discussões sem eira-nem-beira, muito menos com nexo, me perguntaram de bate-pronto: você é racista? Após pouco pensar, respondi: Claro que não!

Porém disse ao meu questionador que esse tipo de pergunta não tinha cabimento. Primeiro por que vivemos num país que tem leis contra racismo, então só louco se declararia racista. E depois vivemos num momento do politicamente correto, dentro de uma democracia que tenta se firmar como tal e poucos se declarariam racistas. Vergonha, medo ou desconfiança.

De qualquer forma, e infelizmente, é quase impossível não ter uma semente de preconceito no plantada no coração de cada brasileiro.

Nossa história tem trezentos anos de escravidão. E mais duzentos anos, após libertação, de continuidade da relação senhor-escravo. A elite brasileira é das mais reacionárias. Não basta ter poder, tem que ser soberba.

Não há culpa. Uma criança não difere o preto do branco. Ela é ensinada a discriminar.

Pelos caminhos da vida nos deparamos com inúmeras armadilhas que aos poucos nos transformam em seres preconceituosos. A começar pela educação escolar recebida. Por enquanto, o ensino coloca pra debaixo do tapete a história da verdadeira contribuição dos descendentes de africanos na formação do povo brasileiro. O que é uma pena.

E não só isso, outros ramos da sociedade também adicionam ingredientes de ódio para que se perpetue este modo de enxergar o outro.  Propaganda, novelas, reportagens, seleção de emprego, trabalho, piadas, locais de entretenimento e etc.

Se duvida, perguntei ao meu colega, observe a pessoa que se vê em situação conflitante com alguém pertencente a um dos grupos discriminados (preto, pobre, nordestino, nortista). O sentimento de raiva e ódio se aflora. Rapidamente é jogada na cara a condição do outro.

Continuei minha explanação. Esta semana tivemos casos típicos de racismos explícitos.  A jornalista Eliane Cantanhêde comparou o avião que trazia os cubanos aos navios negreiros.  É racismo. Foi a primeira imagem que veio à sua cabeça. Ela poderia comparar simplesmente aos navios que traziam os degredados portugueses. Tinha muito mais a ver, se ela queria dizer que eles vinham obrigados pelo governo de Cuba e na ilha são prisioneiros do sistema.

Augusto Nunes comparou o ministro Alexandre Padilha com a princesa Isabel, às avessas. Ou seja, Padilha, para ele, estaria assinando a lei oficializando a volta da escravidão no Brasil. O que é um absurdo, afirmei ao meu atento ouvinte.

Reinaldo Azevedo, da Veja, disse, foi menos sutil, já chamou os médicos cubanos de escravos (???).

E Micheline Borges afirmando que os cubanos pareciam mais empregados domésticos do que médicos, não tinham estilo.

E a manifestação em fortaleza? Com os participantes vaiando a chegada dos médicos cubanos. É ou não expressão de ódio?

E o caso Rafaela Silva, do judô, durante as olímpiadas de Londres?  Eliminada por aplicar um golpe irregular. E por isso chamada de macaca e que seu lugar era numa jaula? 

Agora, prosseguindo com meus argumentos divagatórios, pergunte a qualquer um deles se eles são racistas. A resposta será: não.

Uns negarão por ignorância do que seja racismo, os outros por esperteza.

E outra coisa, querendo concluir, há outro tipo de racismo: o auto-racismo.  

Auto-racismo? Perguntou.

Sim, é aquele em que você se põem em condição de submissão ao outro. Seu pé ainda está na senzala.

Imagine se fossem cinco mil médicos norte-americanos desembarcando no Brasil. Como seriam recebidos? Com vivas ele, respondeu.

Exatamente, disse, seriam elogiados por esses mesmos jornalistas. Olhados como seres de outro planeta. Quase divinos. Os redentores, comparando com a princesa Isabel. Transportados por carruagens celestiais, igual aos navios que trouxeram a família real portuguesa.  E chamados de homens livres com grandes ideais.

Um tapete vermelho coberto de flores e aplausos a lhes esperar. Em Fortaleza.

Pergunte se são auto-racistas? Finalizei o ilustrativo bate-papo.  Até mais.

Fuga do senador Roger Pinto. A Bolívia merece mais respeito.

Brasil BolíviaÉ o segundo episódio de demonstração de falta de respeito pela soberania da Bolívia em menos de um ano.

O primeiro foi a proibição do pouso da aeronave presidencial em solo europeu e a retenção de Evo Morales por treze horas no aeroporto de Viena, no caso Snowden.  E Agora essa fuga “hollywoodiana” do senador Roger Pinto do país, promovida pelo diplomata brasileiro Eduardo Sabóia.  Alegando questões humanitárias pela atitude tomada. Saúde abalada, depressivo. Se alimentando mal. Foram alguns dos argumentos.

Quem houve falar assim pode achar que o senador vivia em condições sub-humanas. Que lhe faltava itens básicos. Sem acesso a remédios ou a médicos.  E que até material de higiene pessoal lhe era negado.

Convenhamos o sr. Roger Pinto não é propriamente pobre, no caso, se o Brasil falhasse, a família e seus correligionários poderiam enviar-lhes mantimentos diversos, como fazem com os presos comuns, certo?

Isto cheira mais a desculpa esfarrapada para esconder motivos mais grandiosos ou mais baixos. Pode ser uma simples afronta ao governo dos dois países, também.

Aliás, segundo Estado/MSN “Há seis meses, o governo da Bolívia havia feito proposta ao governo brasileiro de que senador boliviano fosse levado de carro até a fronteira com o Brasil e deixado lá, “sem que fosse de conhecimento” do governo local. O senador teria de percorrer 1600 km, durante 22 horas, de carro, até chegar à fronteira brasileira tornando a sua liberdade um fato consumado.

Ao tomar conhecimento desta proposta, a presidente Dilma disse que não concordava. Na época, a presidente Dilma reagiu avisando que, se acontecesse alguma coisa com o senador, neste longo trajeto, um acidente, ou qualquer coisa, o governo brasileiro seria responsável, já que era o Estado brasileiro o guardião da sua segurança e da sua vida. Dilma insistiu que a vida do senador não poderia ser colocada em risco”.

Então, esse diplomata desobedeceu a uma ordem dada diretamente pela presidente da república. Por que procedeu dessa forma?  Será que a justificativa dele tem cabimento? E se fosse o Edward Snowden o refugiado na embaixada brasileira, Sabóia faria o mesmo?

E se  tudo não passasse de uma armadilha e o senador fosse morto durante a viagem? Como foi feito com o embaixador Orlando Letelier nos EUA, de quem seria a culpa? Aí sim teríamos um grande imbróglio diplomático.

Sejamos claro, Eduardo fez o que fez, porque é o que é, e o país é a Bolívia. Caso contrário não tomaria tal atitude.

O mal está feito. Patriota já caiu. E agora precisa vir à tona as reais intenções de Eduardo. Tornar público.

E a Bolívia deve usar todas as armas diplomáticas para conseguir a extradição de Roger Pinto. A nação boliviana não pode ser vilipendiada a todo o momento. Lá, por mais que queiram, não é “Casa-de Maria-Joana”.

Que pelo menos os países da América do Sul demonstrem respeito pelo país. Afinal, não foi por postura política que Roger foi julgado.

Conforme o chanceler boliviano David Choquehuanca “El señor Pinto tiene en su contra procesos penales por delitos comunes de corrupción, no es un perseguido político, prueba de ellos es que la justicia ordinaria dictó una sentencia condenatoria en el caso Zofra Universidad, donde se habla de una daño económico de alrededor de 11 millones de bolivianos”. Não me atrevo a traduzir.

E, diferentemente do que disse Miriam Leitão no telejornal “Bom dia Brasil”, não é a Bolívia que faz constantes desaforos. Ela responde às insolências recebidas.  Esta foi mais uma. Concordam?

A reação contra o progama “Mais Médicos”.

Programa-Mais-MedicosLeio a sessão Ódio (Fórum dos Leitores) do Estado de S. Paulo para entender o raciocínio da parte reacionária da sociedade. Sua lógica e postura. Suas desculpas e seus escamoteamentos.

No entanto, o ódio, que antes ficava condicionado a este parte,  se espalhou, como uma metástase, pelo jornal.

O motivo desta explosão  foi a vinda de médicos estrangeiros para trabalharem no país. Em locais recusados pelos doutores pátrios.

Como sabemos, houve várias manifestações contra o programa, inclusive boicote. Não faltavam profissionais da saúde e sim condições de trabalho, argumentavam. Depois, o revalida é obrigatório para todos, incondicionalmente. Obrigar os médicos a servirem por dois anos no SUS era trabalho escravo (essa foi uma pérola). Em nenhum momento essas pessoas, conselhos ou entidades mostraram preocupação pela população carentes desses serviços.

Bem, a cada uma dessas posições contrárias, o governo respondeu com medidas legais. E o programa avançou. Os médicos estrangeiros estão chegando.

Então, diante desta constatação houve uma explosão de dizeres e reportagens raivosas, desesperadas.  Contra os cubanos, óbvio.

E é isso que reproduzo abaixo. Serve como curiosidade e aprendizagem, as preocupações e indignações dos leitores do jornal:

“Está começando a invasão cubana do Brasil do Brasil, apoiada pelo PT e pelos partidos esquerdistas, todos vendilhões da Pátria. Trata-se da subversão da ordem, das normas e da lei. No (ex) nosso país não há mais instituições e Poder que impeçam essa aberração. Breve estarão em Brasília dirigindo esse povo sem sangue nas veias.”

“… Mas o pior é a afronta ao Exército Brasileiro, a de ter de alojar em suas instalações, no 1 regimento de Cavalaria de Guarda- Dragões da Independência-, em Brasília, 250 “médicos” cubanos por três meses”

“Que país é esse que tem 4 mil médicos sobrando para exportar? Onde estavam esses médicos? Quantos pacientes(cubanos) vão deixar de ser assistidos nessa debandada? Quantos médicos vão pedir asilo político…?Que país é esse que aceita pagar R$ 3 mil aos médicos e R$ 7 mil a Cuba? Por que Cuba precisa receber alguma coisa? Ehhh! Brasil”

“… Se o médico errar no diagnóstico (o que é possível), quem será o responsável, o Ministério da Saúde? Em caso de erros serão deportados para Cuba?… Para finalizar, não temos médicos para o SUS, porém o sr. Ministro da Saúde publicamente recrimina e pune os planos de saúde particulares…”

“A presidente Dilma acaba de oficializar o regime de servidão em Cuba. Mão de obra agora é contratada diretamente com o senhor feudal. O pior é que os sindicatos e o PT, diante dessa volta ao passado, estão batendo palmas”

“Eles chegaram. Apesar dos protestos, habemus médicos cubanos”.

Não contente o Estado de S. Paulo publicou a seguinte reportagem: “CRM acionará a polícia contra estrangeiros” pag A24.

O Conselho em questão, e o mais radical, é o de Minas Gerais, governo PSDB.

Diz o presidente da entidade mineira, João Batista Soares: “Esse treinamento de três semanas que vão fazer é besteira. Querem Trabalhar só com esse treinamento, mas  a lei exige o Revalida e exame em português. O governo pode burlar a lei?”. A seguir, afirma: ”Se estiverem irregulares, é exercício ilegal da profissão. E isso é caso de denúncia à polícia” e continua: O CRM-MG vai orientar os profissionais do Estado a “não socorrerem erros de colegas cubanos”

Noutra chamada, na mesma página: “ANS espera justiça e deixa de punir planos”.

A ANS iria suspender 246 operadores de plano por três meses por descumprimento dos prazos máximos para marcação de consulta, exames e cirurgias ou por negativa de cobertura aos beneficiários.  A FenaSaúde entrou com liminar contra a medida. E que se dane os usuários, é isso?

Apenas para fazer contraponto ao que foi publicado faço as seguintes observações, sem me aprofundar: quem tem plano de saúde está sentindo na pela a penúria para marcar consulta. Há muito se reclama da má formação dos médicos brasileiros. Dos constantes diagnósticos errados. Da falta de comprometimento.  Do corporativismo dos CRM que não pune, fica numa eterna averiguação. As melhores faculdades de medicina são públicas, portanto a formação do médico é pago com dinheiro público e o retorno para sociedade é zero, na maioria dos casos.  Das grandes empresas multinacionais usando mão de obra infantil. Dos bolivianos. Das constantes descobertas de escravos nas fazendas.  E por fim volta a afirmar: a preocupação nula com os brasileiros mais necessitados desses profissionais.

O Estado Brasileiro existe desde 1822. Quase 200 anos e os muitos  governos anteriores nada fizeram. Foi só alguém tentar resolver esse problema que a parte reacionária do Brasil saiu de sua toca para expor toda sua insensibilidade e hipocrisia.

Ministério da Cultura e o desfile de moda.

lei rouanetA vestimenta é evidentemente uma expressão cultural de uma nação, de um grupo, de uma organização social.

A moda é uma estética ou hábito adotado pelo homem em determinada época, lugar e cultura; tem um caráter massificador e efêmero, segundo Carmen Lúcia de Oliveira Marinho, professora do SENAC Pernambuco.

Não cabe aqui debater temas antropológicos ligados aos adornos usados pelos brasileiros, isto já foi feito nos tempos de Gilberto Gil ministro, e sim a falta de visão política de Marta Suplicy para tratar com assunto.

Ela parece não entender o recado que as recentes manifestações estão dando e o que estão reivindicando. Certo, nenhum governo deve ser pautado pelas ruas. Afinal eles não representam a totalidade da população, mas isso não significa não ouvi-los. Os governos municipal, estadual e federal vivem um momento delicado.

Agora, como explicar para o cidadão comum, 90 % dos brasileiros, que num país com tanta carência se destine milhões do dinheiro público para desfile de moda no exterior? E que, ainda por cima, os beneficiados por essa verba já sejam estilistas consagrados, com trânsito nas altas esferas da sociedade e que, por conseguinte, são pessoas que não teriam grandes dificuldades em captar recursos no setor privado?

Mal comparando, Marta Suplicy lembra em certos aspectos Maria Antonieta. Rainha francesa, casada com Luís XVI, com fama de perdulária e prepotente, e que de certa forma foi o estopim para a revolução francesa, quando diante da revolta e fome da população teria dito: “Se não tem pão, que comam brioche”, mostrando todo seu pouco caso para as reclamações do povo. Se querem verbas para saúde, segurança, educação que se contentem com desfile de moda. É isso Ministra?

Em outros momentos ela demonstra a mesma insensibilidade da rede Globo, quando o assunto é patrocínio.

Por exemplo: durante a entrevista com um atleta a TV não mostra a marca do patrocinador, se não houver acordo anterior. Independente se é um jogador de futebol famoso ou um simples atleta de maratona.

Não é uma sacanagem com o maratonista? Ele não ganha milhões. As dificuldades são enormes para se sustentar. Às vezes o patrocinador é uma lojinha da pequena cidade onde ele nasceu e não uma multinacional. Custa mostrar a marca? Trás prejuízo pra alguém? E não seria uma forma de incentivar outras empresas a ajudarem esses abnegados?

Não seria muito mais interessante usar a lei Rouanet para incentivar o surgimento de novos talentos? Dar apoio? Não seria um incremento maior na cadeia produtiva?

Depois ficam reclamando dos resultados. Que o brasileiro não consegue resultado expressivo no exterior. Que o Brasil não se firma como potência. E coisas tais.

É legal o que Marta Suplicy fez? Claro que é. Mas é justo com os outros artistas ou associações culturais que batalham há anos por recursos, sem conseguir a autorização?

A lógica do governo não pode ser capitalista. O cargo de ministro é político. Seja qual for o ministério. O ocupante do cargo tem que ter esta noção. Com o risco de levar o governo a uma saia-justa.

O absurdo está feito. Agora é só aplacar as críticas. E torcer para que a avaliação do governo Dilma não caia.

STF: Tribunal de Justiça ou de Direito?

justiça stf“Conta-se que Holmes, comprovando seu apego à autocontenção judicial (judicial self-restraint), cansado da retórica de um jovem bacharel, que insistia que a Corte desconsiderasse o que expressamente dispunha a lei e “fizesse justiça”, teria interrompido a oratória do inexperiente jurista para adverti-lo de que estava num tribunal onde se aplicava o direito, e não onde se “fazia justiça”: “Meu jovem, este é um tribunal de direito, não uma corte de justiça””. Causo narrado pelo desembargador Néviton Guedes, do TRF da 1 região e doutor em direito pela Universidade de Coimbra.

Oliver Wendel Holmes, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos entre 1902 e 1932 e um dos patronos da noção de autocontenção judicial, pela qual os juízes deveriam fazer o possível para aplicar a lei em vez de tentar fazer justiça.

Lembrei-me deste trecho do livro “A outra História do Mensalão”, de Paulo Moreira Leite, após ouvir outro bate-boca entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowisk durante o julgamento dos recursos dos condenados no processo 470.

Lewandowisk, percebendo a impaciência de Barbosa em terminar o tópico discutido, perguntou: “Presidente, nós estamos com pressa do quê? Nós queremos fazer Justiça”.

Joaquim Barbosa retrucando disse: “Nós queremos fazer nosso trabalho, e não chicana, ministro”.

Um quer  fazer o trabalho, aplicar a lei, e o outro fazer justiça.

Para mim este é o grande ponto da discussão: fazer justiça ou cumprir a lei (autocontenção judicial)?

Há de ser muito bem debatida esta questão. Pois atinge diretamente todo sistema judiciário. Além do que, os ministros não estão julgando, por exemplo, questões trabalhistas e sim corrupção, o que pode levar ao cerceamento da liberdade, o bem mais valioso que o ser humano tem.

Então, pergunto: será que o STF ou qualquer outro tribunal existe para fazer justiça ou apenas para cumprir o que determina a lei? E se for assim, será que nossas leis são por elas mesmas justas? Será que não partem de premissas injustas? E por isso mesmo, temos aquela eterna sensação que não foi feita justiça? De que faltou algo?

Ou talvez este seja mais um daqueles impasses que ninguém deseja resolver, por ser mais confortável? Sim, porque dependendo de quem está sendo processado o tribunal pode decidir por um ou outro lado, sem peso na consciência. Neste país, rico não vai para cadeia? Não é assim que dizem?

O que mais vale: a justiça ou a lei? E, digamos, se decidirem por uma corte apenas de Direito onde iremos procurar por justiça? Um não anda de mãos dadas com o outro.

É o mesmo caso do chamado “Domínio do Fato”. O STF fez uso dessa teoria para condenar pessoas já condenadas por parcela da população e pela mídia. Foi aplaudido. Agora, no caso do “propinoduto” do metrô os tucanos, um dos que aplaudiram, não querem nem ouvir falar disso. Claro, porque se usarem a teoria do mesmo jeito que usaram no mensalão Alckmin, Serra serão condenados, num possível julgamento.

O reflexo dessa discussão (levantada, sem querer, pelos dois ministros), justiça ou direito, recai sobre o cidadão comum. Lembremos um dia podemos ser vítimas de injustiças também.

Que o diga David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald: ficou detido por nove horas no aeroporto, em Londres, baseado numa lei antiterror.  Os policiais agiram dentro da legalidade, se forem julgados serão inocentados. Porém, não foi justa a detenção. Por que não foi justa? Porque os agentes partiram de uma alegação errada, a de ele ser terrorista.

Então que filósofos, juristas, historiadores e cientistas vários ponham em debate esta questão. Já se passaram mais de oitenta anos depois da história relembrada acima.

Os povos indígenas já solucionaram esse problema, num certo trecho de uma poesia eles escreveram:

“… quando os nossos chefes e anciãos eram grandes líderes,

quando a justiça dirigia a lei e sua aplicação,

Depois vieram outras civilizações!“.