A transfiguração na morte, por Leonardo Boff.

leonardo-boff-2013De há muito que nos tiraram o direito de velarmos nosso mortos, segundo o rito pessoal e a crença de cada um. De há muito não vemos mais féretros percorrendo solenemente as ruas. De há muito não choramos nossos entes em  seu próprio ambiente.

É o comércio em cima de momento triste e únicos.

Esquecemos a simples passagem de um estado ao outro. O imponderável. O material e a decisão equacionadas. Não incluso o espiritual. A vida sobrepujando a vida.

O texto abaixo resgate, por um instante, a calma, a certeza, e a continuidade da morte. O brilho da vida. E o respeito.

A transfiguração na morte

Leonardo Boff

O Dia dos Mortos, 2 de novembro, é sempre  ocasião para pensarmos na morte.  Trata-se de um tema existencial. Não se pode falar da  morte de uma maneira exterior a nós mesmos, porque todos nós somos acompanhados  por esta realidade que, segundo Freud, é a   mais difícil de ser digerida pelo aparelho psíquico humano. Especialmente  nossa cultura procura afastá-la, o mais possível, do horizonte, pois ela nega  todo seu projeto assentado sobre a vida material e seu desfrute etsi mors non daretur, como se ela não  existisse.

No entando, o sentido que damos à morte é o sentido que  nós damos à vida. Se decidimos que a vida se resume entre o nascimento e a  morte, e esta detém a última palavra, então a morte ganha um sentido, diria,  trágico, porque com ela tudo termina no pó cósmico. Mas se interpretarmos a  morte como uma invenção da vida, como parte da vida, então não a morte mas a  vida constitui a grande interrogação.

Em termos evolutivos, sabemos que, atingido certo grau  elevado de complexidade, ela irrompe como um imperativo cósmico, no dizer do  Prêmio Nobel de Biologia Christian de Duve, que escreveu uma das mais brilhantes  biografias da vida sob o título Poeira  vital  (1984). Mas ele mesmo  assevera: podemos descrever as condições de seu surgimento, mas não podemos  definir o que ela seja.  Na minha  percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é  simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo  lapso temporal, ela segue seu curso pela  eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois  ela representa a porta de ingresso no mundo que não conhece a morte, onde não há  o tempo mas só a eternidade.

Consintam-me testemunhar duas experiências pessoais de  morte, bem diversas da visão dramática que a nossa cultura nos legou. Venho da  cultura espiritual franciscana. Nos meus quase 30 anos de frade, pude vivenciar  a morte como São Francisco a vivenciou.

A primeira experiência era aquela que, como frades,  fazíamos toda sexta-feira, às sete e meia da noite: “o exercício da boa  morte”.  Deitávamo-nos na cama, com  hábito e tudo.  Cada um se colocava  diante de Deus e fazia um balanço de toda a sua vida, regredindo até onde a  memória pudesse alcançar. Colocávamos tudo, à luz de Deus e aí, tranquilamente,  refletíamos sobre o porquê da vida e o porquê dos zigue-zagues deste mundo. No  final, alguém recitava em voz alta no corredor o famoso salmo 50, o Miserere, no qual o rei Davi suplicava a  Deus o perdão  de seus pecados. E também se proclamavam as consoladoras palavras  da epístola de São João: “Se o teu coração te acusa,  saiba que Deus é maior do que o teu  coração”.

Éramos, assim, educados para uma entrega total, um  encontro face a face com a morte diante de Deus. Era um entregar-se confiante,  como quem se sabe na palma da mão de Deus. Depois, íamos alegremente para a  recreação tomar algum refresco, jogar xadrez ou simplesmente conversar. Esse  exercício  tinha como efeito um  sentimento de grande libertação. A morte era vista como a irmã que nos abria a  porta para a Casa do Pai.

A outra experiência diz respeito ao dia da morte e do  sepultamento de algum confrade. Quando morria alguém, fazia-se festa no  convento, com recreação à noite com comes e bebes. O mesmo ocorria depois de seu  sepultamento. Todos se reuniam e celebravam a passagem, a páscoa e o natal, o vere dies natalis (o verdadeiro dia do  nascimento) do falecido. Pensava-se: ele na vida foi, aos poucos, nascendo e  nascendo até acabar de nascer em Deus. Por isso havia festa no céu e na terra.  Esse rito é sagrado  e celebrado  em todos os conventos franciscanos.

O frade que deixou este mundo entrava na comunhão dos  santos, está vivo, não é um ausente, apenas um invisível. Há celebração  mais digna da morte do que esta inventada por  São Francisco de Assis, que chamava a todos os seres de irmãos e irmãs e também  a morte de irmã?

A percepção da morte é outra. As pessoas são induzidas a  conviver com a morte, não como uma bruxa que vem e arrebata a vida mas como a  irmã que vem abrir a porta para um nível mais alto de vida em Deus.

Cada cultura tem a sua interpretação da morte. Estive há  tempos entre osmapuches,no sul da Patagônia  argentina, falando com os lomkos, os  sábios da tribo. Eles têm bem outra compreensão da morte. A morte significa  passar para o outro lado, para o lado onde estão os anciãos. Não é abandonar a  vida, é deixar seu lado visível para entrar no lado invisível e conviver com os  anciãos. De lá acompanham as famílias, os entes queridos e outros próximos,  iluminando-os. A morte não tem nenhuma dramaticidade. Ela pertence à vida, é o  seu outro lado.

Poderíamos passar por várias outras culturas para  conhecer-lhes o sentido da vida e da morte. Mas fiquemos no nosso tempo moderno.  Há um filósofo que trabalhou positivamente o tema da  morte: Martin Heidegger. Em sua analítica  existencial afirma que a condição humana, em grau zero, é a de que somos um ser  no mundo, este não como lugar geográfico mas como o conjunto das relações que  nos permitem produzir e reproduzir a vida. A condition humaine  é estar no mundo com  os outros, cheios de cuidados e abertos para a morte. A morte é vista não como  uma tragédia e, sim, como a derradeira expressão da liberdade humana,  enquanto último ato de entrega. Essa entrega sem resto abre a possibilidade para  um   mergulho total na realidade e no  Ser. É uma espécie de volta ao seio de onde viemos como entes mas que buscam o  Ser. E finalmente, ao morrer, somos acolhidos pelo Ser. E aí já não falamos  porque não precisamos mais de palavras. É o puro viver pela alegria de viver e  de ser no Ser. Para o homem religioso, este Ser não é outro senão o Supremo Ser,  o Deus vivo que nos dá a plenitude da vida

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