Justiça manda grávida fazer cesariana contra sua vontade.

violencia obstetricaO caso da cesariana forçada de Adelir Góes expõem séria discussão sobre até que ponto o Estado pode intervir na vida de uma de seus cidadãos e a indústria da cesária.

Retirado do site Terra de 11 de abril.

“A decisão da Justiça do Rio de Grande do Sul que determinou que Adelir, de 29 anos, fosse submetida à cirurgia atendeu a pedido do Ministério Público (MP), feito com base no relato da equipe médica do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. Segundo o MP, a mulher, grávida de 42 semanas, procurou o hospital com dores abdominais. Apesar da indicação cirúrgica, ela preferiu retornar para casa e aguardar o parto normal. Após a liminar, ela foi levada para o hospital. Os médicos disseram que a gravidez era de risco, porque a paciente havia feito duas cesáreas antes, o que aumenta a possibilidade de ruptura uterina e, por consequência, o risco de morte da mãe e do bebê.

O médico obstetra Jorge Kuhn, ativista da humanização do parto, destaca que há evidências que a mulher pode tentar o parto vaginal após quantas cesarianas tenham vindo anteriores. “Não havia risco para ela (Adelir). Risco maior, ela e o bebê correram com cesariana. Ela passou no hospital horas antes, foi feita ultrassonografia, vi o laudo do ultrassom, o nenê estava muito bem”, avaliou. Ele avalia que houve inabilidade dos profissionais do hospital em fazer o parto pélvico. “Eu não conheço nenhum caso como esse no Brasil. Seria a mesma coisa de fazer com que uma mulher decidida pela cesariana, fosse obrigada a parir normalmente contra a vontade dela”, declarou”.

Ou seja, os médicos do hospital decidiram pela cesariana mesmo contra a vontade da paciente. Pois havia risco à vida. Apelaram ao MP e com liminar em mãos realizaram o procedimento. E ponto final.

No entanto o obstetra Kuhn contesta a decisão e acrescenta que o risco maior correu a paciente durante a cesária.

Organizações de mulheres que defendem o parto humanizado fizeram protesto no Largo São Francisco, região central de São Paulo, em apoio a Adelir Góes. As manifestantes permaneceram em vigília até as 11h de amanhã (12), quando saíram em caminhada para a sede do Ministério Público, onde protocolaram um requerimento de audiência pública para debater a Violência Obstétrica.

Violência Obstrétrica, segundo a defensoria pública de São Paulo, existe e caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais da saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres.

Como se sabe o Brasil é campeão mundial em cesarianas.

Alguns mitos que justificam uma cesariana: bebê muito grande, muito pequeno ou “passando da hora”, mulher com baixa estatura, ou quadril estreito (“não tem passagem”), cordão enrolado no pescoço, pé do bebê “preso na costela” da mãe, pouco líquido amniótico, mulher que apresenta cesarian anterior, deficiência ou mobilidade reduzida, falta de contrações ou dilatação (fora do trabalho do parto), hemorroidas, hepatite, cardiopatia, etc.

E por que os médicos optam por cesariana ao invés do parto normal?

Conforme Desiré Callegari, do Conselho Federal de Medicina: Dá menos trabalho para equipe médica. Uma intervenção cirúrgica leva em média duas horas, o parto normal, 6 horas. O preço pago ao médico é praticamente o mesmo. Tornou-se cômodo ao profissional fazer intervenção cirúrgica.

A paciente fica presa a agenda do médico, não o médico preso à força da natureza, portanto à paciente. Inversão de valores.

A violência obstétrica e a intervenção do Estado deve ser, sim, debatida pela sociedade.

O estabelecimento de protocolos claros, fora da lógica capitalista, para a situações de riscos de um parto, se faz necessário nesses tempos em que a mulher conquista mais direitos. Em que a questão de gênero é posta à mesa.

Ou no mínimo, questão de respeito ao que resta de humanidade dentro de cada um de nós.

 

 

 

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