Sobre edisonnsbrito

Masculino, 53 anos casado

O Brasil não é a Argentina. Nossas lutas são outras.

A esquerda viu com júbilos e esperança a vitória nas prévias da dupla argentina Alberto Fernández –Cristina Kirchner. Jornalistas e intelectuais mais afoitos já preveem a retomada do viés progressista na América Latina. Um tsunami a arrebentar a ultradireita. Uma Luz no fim do túnel.

Pode até ser que tenham alguma razão, mas, por favor, excluam ou diminuam, e muito, a expectativa em relação ao Brasil.

O efeito “orloff”, por essas bandas, não funciona. Nossa história, comportamento, atitudes, coragem, ânimo e postura são muito diferentes dos nossos “hermanos”.

Lá, na Argentina, não há comandantes das forças armadas ameaçando as instituições como por aqui. O STF que o diga.

Lá, na Argentina, não existe a uma lei de autoanistia pra golpistas, assassinos e torturadores, como por aqui.

Lá, a Argentina, não existe um presidente que coloca como herói nacional um notório torturador, o tal de brilhante ustra.

Lá, na Argentina, as autoridades atuais reagem com vigor às tentativas de desestabilização do regime.

Lá, na Argentina, a presidenta regulou a mídia. Enfrentou e bateu no Clarin, a Globo de lá.  Aqui, o contrário.  A Globo bate nos governantes.  A Globo ameaça, manipula, manda e desmanda, faz e desfaz governos. E nada, absolutamente nada, acontece.  Lula e Dilma foram vítimas das famosas e mentirosas capas da veja.  A patrícia poeta, em entrevista com a Dilma, chegou a apontar o dedo para a presidenta. E o que fizeram? Nada! Nem processo coube.

Lá, na Argentina, não existe preso político. Aqui temos o Lula. Encarcerado, depois de um julgamento fraudulento, injusto. Conduzido por um juiz corrupto e procuradores sacanas.

Lá, na Argentina, o presidente não bateu continência para bandeira americana.

Lá, na Argentina, o presidente não espalha ódio entre a população.

Lá, na Argentina, nenhum deputado teve que renunciar ao cargo e fugir do país por estar ameaçado de morte.

Lá, na Argentina, nenhuma filósofa foi obrigada a sair do país por estar também ameaçada de morte.

Lá, na Argentina, não assassinaram vereadora por motivos políticos.

Lá, na Argentina, as manifestações colocam facilmente cem mil pessoas nas ruas. Isso com um quinto da população brasileira.

Lá, na Argentina, os golpistas foram julgados e apenados. Aqui, pelo andar da carruagem, nem os atuais golpistas serão punidos.

Lá, na Argentina, não houve golpe de estado e nem líderes afirmando que golpe era uma palavra muito dura.

Então, por favor, os nossos caminhos de lutas são outros. As pedras são outras.  Aqui temos um golpe a resolver. Golpistas a serem presos, sejam eles políticos, juízes,  comandantes, procuradores, delegados e jornalistas . A Globo, esquartejada. Facada explicada. E eleições anuladas. Impeachment da Dilma anulado. E Lula Livre.

Esperar que o pleito de 2022 solucione todas as questões citadas acima é de uma inocência infantil. Cães latindo vendo a caravana passar. Melhor rezar por um milagre. E milagres não acontecem. E se sentirem que pode acontecer da esquerda ganhar, não deixam. Ou alguém, depois de tudo que o Gleen revelou, ainda duvida que a patifaria é coisa do passado?

Viva a Argentina. Parabéns argentinos.

Nossa luta continua por caminhos bem mais tortuosos.

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Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro

Sempre me perguntei por que algumas mulheres, homossexuais, nordestinos, membros pertencentes a minorias étnicas podiam apoiar o “bozo”, visto que ele claramente é um sujeito machista, preconceituoso, racista e violento.

Pois bem, o trabalho acadêmico publicado abaixo identificou 16 desses grupos que por um motivo ou outro apoiou ou apoia o presidente mais boçal jamais eleito no mundo.

Além de muito interessante, divulgo no intuito de que conhecendo a “clientela” bolsonarista possamos aprimorar as nossas estratégias de lutas contra as mentiras espalhadas pelos fascistas. Vale a leitura.

QUEM SÃO E NO QUE ACREDITAM OS ELEITORES DE JAIR BOLSONARO

 

Coordenação: Isabela Oliveira Kalil

 

Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo :

1)As pessoas de bem:

Instituições fortalecidas para o fim da impunidade.

Perfil: Homens e mulheres de classe média, acima dos 35 anos, que “possuem família” e se preocupam com a segurança de seus filhos e, consequentemente, o“futuro da nação”. Não acreditam que a “justiça com as próprias mãos” possa a ser a solução para o país, repudiam a violência entre os cidadãos e desejam que as instituições sejam fortalecidas. Este perfil comporta um amplo espectro de posições que variam desde a proposta de que a Polícia Federal deveria substituir o Supremo Tribunal Federal, até aqueles que clamam pela volta da ditadura

militar ou uma “intervenção militar temporária e constitucional”.

O que repudiam: Localizam na “corrupção” e na “impunidade” os maiores problemas do Brasil. Há referências também ao excesso de “injustiça” na sociedade e críticas ao “sistema vigente” na política brasileira. Expressam um sentimento de repulsa difuso ao “desgoverno petista”. A frase “direitos humanos para humanos direitos” serve como síntese para expressar que o Estado só age de maneira mais bruta ou viola direitos daqueles que não são “pessoas de bem”.

2) Masculinidade viril:

Armas para os civis fazerem justiça com as próprias mãos

Perfil: Muito próximo da “pessoa de bem”, estes perfis compartilham das mesmas características com uma exceção: a justiça não seria “terceirizada” para as instituições e sim exercida pelo próprio cidadão. Este perfil é mais comum entre homens de 20 a 35 anos e característico de homens que exibem uma performance de masculinidade viril, de diferentes classes sociais.

O que repudiam: Este perfil enxerga a violência urbana como o maior problema social e se vê como um sujeito constantemente ameaçado. Alguns homens deste perfil definem a si mesmos como “opressores”. Diante do problema da violência, o “opressor”, vislumbra no porte de armas uma solução, pois acredita que os cidadãos devem ter condições de se defender e também de praticar justiça, quando necessário. A justiça neste sentido, é vista como a capacidade de se defender de “bandidos”, mas também de se defender contra eventuais abusos do próprio Estado, leia-se uma ditadura comunista ou um governo autoritário de esquerda.

3) Nerds, gamers, hackers e haters

A construção de um mito

Perfil: Este perfil pode ou não se combinar com o da masculinidade viril. Com alta popularidade entre jovens, este grupo é composto majoritariamente por homens entre 16 a 34 anos. O perfil destes conservadores concentra-se em fóruns restritos, jogos online e caixas de comentários de sites de cultura pop em que é possível verificar falas tradicionalistas e intolerantes sobre personagens específicos do mundo dos games, quadrinhos e filmes. Além do mundo do entretenimento e jogos, a figura dos haters e trolls se fazem presentes nos comentários de portais de notícias e outras ações cibernéticas como ataques à determinadas páginas ou perfis. Esse grupo foi um dos principais responsáveis por disseminar a imagem de Bolsonaro em sua pré-campanha, o que contribuiu consideravelmente para sua atual “popularidade”. A figura em particular construída pelos nerds, gamers e hackers conservadores compreende a do‘bolsomito’, lapidada a partir da produção, majoritariamente nas redes sociais, de memes centrados no candidato, geralmente acompanhados por um tom jocoso e provocador”.

O que repudiam: Agindo geralmente de forma organizada, costumam fazercampanhas de assédio online contra perfis progressistas, feministas, lésbicas e gays. Um dos casos mais famosos, que reuniu homens do mundo inteiro, o #GamerGate, foi uma tentativa de barrar a participação de mulheres nos games e plataformas online de jogos. A campanha se estendeu por outros segmentos do ramo, como quadrinhos, conhecido como #ComicsGate e a campanha de boicote a filmes que abordassem as questões de gênero e racismo.

4) Militares e ex-militares

Guerra às drogas como solução para a segurança pública

Perfil: Homens e mulheres que têm ou tiveram carreira dentro de corporações policiais e Forças Armadas (policiais, delegados, cabos, generais, majores e bombeiros). Lançam mão de seus cargos e conhecimento para propagar as ideiasrelacionadas à segurança pública e, também, participar da vida política.

O que repudiam: Repudiam, em sua maioria, a escalada da criminalidade, a desvalorização e o sucateamento das instituições voltadas para a segurança pública e também a falta de ordem nas instituições nacionais e na sociedade civil. No tema da criminalidade, este perfil critica a ascensão de facções criminosas como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), vinculam esse fenômeno à despreocupação dos governos de esquerda com o tema da segurança pública, em especial, o problema do tráfico de drogas.

5) Femininas e “bolsogatas”:

Mulheres “empoderadas” para além do “mimimi”

Perfil: Perfil composto pela nova geração de “mulheres da direita”, mais presentes na classe média e média alta e elites. Elas são jovens, faixa etária dos 20 a 30 anos, sem filhos ou com filhos pequenos, com diploma em áreas diversas, atuam no mercado em diferentes profissões. São mulheres independentes financeiramente que construíram sua imagem e discurso sob a perspectiva do crescimento individual. Ou como afirmam, sem precisar do “mimimi”, conhecido por elas como o “discurso de vitimização” da mulher.

O que repudiam: Usam o termo “femininas” para se contrapor às “feministas”. Seu lema é “sou feminina, mas não sou feminista”. Para elas, enquanto as feministas estão chamando atenção nas redes sociais “problematizando tudo” ou propagando a “desconstrução social”, como leis para legalizar o aborto; as femininas (que também se reconhecem como “bolsogatas” ou bolsolindas”) querem reafirmar a imagem da mulher que é bem-sucedida, sem abrir mão de

aspectos de “feminilidade” ou da trajetória de ter alcançado sucesso por esforço próprio. Assim, algumas dessas mulheres repudiam mais a agenda feminista, outras repudiam mais o assédio dos homens e a violência contra a mulher. Mas em todos os casos se alinham com proposições de políticas duras contra a “corrupção”, a criminalidade e também contra a violência de gênero.

6) Mães de direita:

Por uma escola sem “ideologia de gênero”

Perfil: As mães de direita formam um perfil de mulheres entre 30 a 50 anos, com filhos em idade escolar entre o ensino fundamental e o ensino universitário. Formam um perfil de classe média baixa, com filhos tanto na escola pública quanto particular, mas predominantemente pública. Podem ser casadas, divorciadas ou chefes de família monoparental. Para este perfil, a educação (especialmente pública) é o grande campo de batalha político e ideológico.

O que repudiam: Elas afirmam não serem preconceituosas com a comunidade LGBT. Para este grupo, a questão não está na orientação sexual em si das pessoas, mas na forma como expressam sua sexualidade em público. De acordo com esta perspectiva, gays, lésbicas, bi e transexuais deveriam “viver entre os seus”. Para as pessoas ouvidas, a maior parte não se importa com a união afetiva formalizada no cartório, mas acreditam que estes casais não deveriam “ensinar” nem “mostrar” esses afetos para as crianças, que precisariam ser protegidas.

Essas mães defendem que a “inocência” e a “ingenuidade” infantil devem ser preservadas e temem a “doutrinação da ideologia de gênero” e/ou “doutrinação marxista” nas escolas pelos professores.

7) Homossexuais conservadores

“Homem é homem”, não importa se gay ou hétero

Perfil: Composto principalmente por pessoas de 20 a 40 anos, de diferentes classes sociais, este grupo encontra meios de compatibilizar determinados ideais moralizantes a respeito da família e da educação com suas identidades de gênero e orientação sexual. Se reconhecem como “gays de direita” porque são “direitos” (e não apenas “gays da direita”). A maioria deste perfil é formada por homens, poucas mulheres lésbicas são vistas em meio ao grupo. Este perfil se combina com a “pessoa de bem” na crença de que apenas as pessoas LGBT que sofrem violência são aquelas que “dão pinta” ou “não se dão o respeito”. Embora este grupo não seja numericamente a maior base de apoio a Bolsonaro, seu perfil é essencial para ajudar a comprovar a tese de que o candidato não é homofóbico e respeita as liberdades individuais.

O que repudiam: São gays contra o movimento LGBT, com forte presença dos”pais de família” desiludidos com a maneira com que o movimento LGBT tradicional tem pautado as demandas do grupo. A base comum para este perfil é o discurso “anti-corrupção” e a defesa do extermínio de “bandidos” com penas mais rígidas. Questões relacionadas aos direitos LGBT ficariam em segundo plano dada a urgência de pautas relacionadas aos “interesses da nação”. Esteperfil tende a naturalizar o discurso “anti gay afeminado”, ou seja, uma pessoa homossexual deveria manter a “compostura” perante as pessoas mais velhas e crianças, para não oferecer exemplos de “vulgaridade em público”.Compartilham da perspectiva de “homem é homem, independentemente de ser ou não gay”.

8) Etnias de direita

Minorias perseguidas por se posicionarem a favor de Bolsonaro

Perfil: Composto por homens e mulheres, negros, indígenas, orientais, imigrantes, este perfil (pouco numeroso e muito diverso) começou a se tornar visível após as denúncias de que a direita e a extrema direita não comportavam entre seus militantes e representantes políticos, pessoas negras, indígenas, quilombolas e orientais. Suas principais reivindicações são no sentido de buscar maior autonomia de posicionamento político, defendendo que minorias étnicas têm sido perseguidas por se posicionarem a favor de Bolsonaro. Este é um dos

últimos perfis a se tornarem mais visíveis na campanha do candidato.

O que repudiam: A atuação deste perfil é orientada pela ideia de que os governos de esquerda teriam fragmentado uma “unidade nacional” e que Bolsonaro teria como proposta um “governo unificador” baseada na ideia de que “o Brasil é um só”, como expressa o jargão propagado pelo próprio candidato. Alguns são contra as cotas, muitos são contra o “vitimismo”. A questão do

desemprego é recorrentemente citada. Sua atuação visa diluir as diferenças entre as classes, etnias e gênero que, segundo essa tendência, teria sido propagadas pelos governos, intelectuais e militantes de esquerda.

9) Estudantes pela liberdade

Voto rebelde contra a “doutrinação marxista”

Perfil: Esse perfil é constituído por jovens estudantes do ensino médio ou estudantes universitários, que têm entre 14 e 30 anos, do sexo masculino e feminino. Estes estudantes não se veem contemplados pelo ambiente escolar ou acadêmico e se sentem privados da participação em grêmios e centros acadêmicos em razão de posicionamentos políticos. Este é um dos perfis mais heterogêneos por comportarem estudantes de ensino médio público e particular e estudantes de universidade pública e privada.

O que repudiam: Nos grupos de estudantes do ensino médio público temos muitas vezes, apoiadores que enxergam Bolsonaro como um outsider e no ambiente escolar este voto se torna “descolado”. Dentre os estudantes de ensino médio privado temos aqueles que são contrários às políticas públicas que possibilitam acesso dos jovens de ensino público na universidade e também qualquer mecanismo de cota que “facilite” ou “privilegie” certas camadas sociais

em detrimento de outras. Para estes, o mérito é o que deve imperar. Entre os mais jovens, está presente uma espécie de voto rebelde, muito próximo a um voto de protesto, “votar naquilo que é diferente”. Alguns repudiam o uso de drogas entre os jovens, pois essa seria uma forma de degeneração e de desperdício da possibilidade de futuro. Dentre os universitários, os discursos sobre cotas e mecanismos que incentivam a entrada de certos grupos sociais no ensino superior tomam maior corpo. Há um discurso mais ou menos comum dos “estudantes pela liberdade” de que somente as cotas sociais seriam suficientes, visto que a desigualdade econômica contemplaria as outras desigualdades e esse mecanismo seria suficiente para sanar as injustiças sociais. Especificamente em relação aos cursos de humanidades, fazem fortes críticas à uma “educação doutrinadora”, que não respeita os valores que os alunos trazem de casa, ou, até mesmo, de sua “formação política independente”. Vislumbram a “doutrina marxista” como uma

grande ameaça à educação imparcial liberal, fazem coro a discursos sobre o“marxismo cultural” e da escola enquanto uma forma de reprodução da“ideologia comunista”.

10) Periféricos de direita

Os “pobres” que desejam o “Estado mínimo”

Perfil: Este perfil é composto por pessoas do sexo masculino e feminino que se identificam, por vezes, com a categoria “pobres de direita”. No caso da cidade de São Paulo, se identificam como moradores das periferias, são profissionais de carteira assinada, autônomos, pequenos empreendedores, desempregados e outros trabalhadores. Um discurso presente entre pessoas deste perfil é o de que o início da participação em manifestações políticas no espaço público é recente, em geral, após o ano de 2016 no contexto do impeachment.

O que repudiam: O grupo caracteriza-se pela revolta e pela denúncia da violência e da impunidade que são por eles vividas em regiões periféricas da cidade e/ou questões específicas como violência contra mulheres e crianças, estupro, problemas econômicos, desemprego, corrupção e ainda sobre a má qualidade dos serviços públicos. Segundo esta perspectiva, as posturas e propostas “de esquerda” não dão conta de resolver ou não davam a atenção necessária para estas questões, com ênfase especial à questão da segurança pública. Com este argumento, este perfil absorveu e criou um variado repertório crítico aos governos e sujeitos que se posicionavam a partir de concepções “de esquerda” e se posicionam de modo cada vez mais enfático, de forma a se distinguirem de camadas ainda mais empobrecidas. Ou seja, ainda que se identifiquem, em alguns casos, como “pobres”, buscam manter uma distinção em relação aos mais pobres, caso dos beneficiários do Bolsa Família que, para eles, teriam pouca perspectiva crítica em relação à situação do país. Ao realizarem essa crítica, buscam assinalar uma distinção “esclarecida” das perspectivas políticas da esquerda e de seus apoiadores. Sobre uma potencial redução do papel do Estado – já que são pessoas que dependem dos serviços públicos -, na percepção de parte dos entrevistados, a defesa do Estado mínimo significa que o Estado deveria intervir o mínimo possível em questões consideradas como o campo da religião ou da vida íntima (leia-se moral) e não necessariamente implicariam em uma redução de serviços públicos, como a educação e a saúde. Compreender esse elemento nos ajuda a lidar com discursos aparentemente contraditórios em que pessoas que dependem diretamente do sistema público defendem o Estado mínimo.

11) Meritocratas:

O antipetismo dos liberais que “venceram pelo próprio mérito”

Perfil: Este perfil é caracterizado por pessoas de classe média alta e elites, com alto nível de escolarização. São empresários, advogados, médicos, intelectuais, professores, e outras profissões que se apoiam em alguma forma de autoridade. Como o nível educacional é uma forma de distinção, enfatizam como “venceram pelo próprio mérito”. Este perfil assume um dos discursos mais convictos principalmente contra a corrupção, tendo como expressão um acentuado antipetismo. Possuem uma visão mais racional e esclarecida a respeito de um

projeto de Estado neoliberal ou Estado mínimo. Defendem redução ou corte de programas sociais, tendem a ver estes programas ou como privilégios ou como formas de tornar as pessoas pouco produtivas. São contra cotas e direitos dos territórios indígenas e se expressam com a máxima “é preciso ensinar a pescar e não dar o peixe”. Usam a si mesmos como exemplos ou pessoas conhecidas –como o filho da empregada que recusou entrar na universidade pelas cotas por ter dignidade e querer vencer pelo próprio mérito.

O que repudiam: Eles podem adotar posições economicamente liberais (no sentido de apoiar o livre mercado e o Estado mínimo), mas não necessariamente se adequam ao modelo representado por Bolsonaro, conservador nos costumes. Para a maioria dos meritocratas, as discussões relacionadas à gênero, sexualidade e identidades são secundárias. O que importa é que Bolsonaro não representará o modelo econômico petista que corrobora uma tendência vista

como negativa na sociedade brasileira que teria “muitos direitos e poucos deveres”.

12) Influenciadores digitais

Liberais e conservadores “salvando o Brasil de se tornar uma Venezuela”

Perfil: Os influenciadores digitais estão próximos do perfil meritocrata, mas são aqueles que produzem conteúdo para as redes sociais, como Youtube, Instagram e Facebook. Podem se lançar como candidatos na política após alcançar um público relativamente numeroso. Essas figuras podem não se ver inteiramente contempladas pelas perspectivas de Jair Bolsonaro, seja política, moral ou economicamente, mas acreditam que no momento seja a melhor saída. Para

parte destas pessoas, é preciso “arrumar a casa” e cuidar da corrupção para que depois possam ser implementados os projetos com que realmente concordam. Os/as influenciadores/as tem eles/elas mesmos/as perfis heterogêneos: 1) Convertidos: pessoas que já foram comunistas, gays, feministas, ateus e militantes de esquerda, mas que abandonaram esses movimentos e assumiram uma postura de duras críticas em relações a eles. 2) Celebridades: são, muitas vezes, cantores, atletas e artistas que declaram apoio à Jair Bolsonaro, seus posicionamentos geram grande repercussão. 3) Pensadores, intelectuais e jornalistas que lançam tendências, realizam análises e, por vezes, possuem afinidades ideológicas com a direita internacional (liberal ou conservadora).

O que repudiam: Possuem uma forte repulsa ao “comunismo”, “às ideologias de esquerda” e também aos movimentos sociais ou quaisquer grupos que possuam preocupações com as minorias sociais. Possuem um discurso de denúncia contra o “autoritarismo da esquerda”, da forma como os movimentos sociais e de minorias se organizam. Têm como característica um forte sentimento antipetista e contra corrupção. Procuram “salvar o Brasil” da possibilidade de se tornar um regime de esquerda autoritário, pobre e violento que se expressaria no “risco do Brasil se tornar uma Venezuela”.

13) Líderes religiosos

A defesa da família contra o “kit gay” e outros pecados

Perfil: O líder religioso é um perfil que tem grande importância pelo papel que exerce como influenciador e como propagador de campanha e interesses, poresta razão, pode se sobrepor ao perfil do influenciador. Este perfil agrega figuras como padres, pastores, missionários, cantores evangélicos e indivíduos que têm importância e voz no meio religioso (especialmente cristão)

considerado um propagador exatamente por sua posição de influência e por seu discurso gerar repercussão. São formadores de opinião e podem ser detentores de grandes canais de

comunicação como TV, cinema, rádios e outras plataformas de entretenimento religioso ou não religioso. Este perfil também diz respeito aos líderes religiosos de menor alcance em pequenas cidades, periferias, e pequenas comunidades.

O que repudiam: São arautos do que é entendido como formas de conduta adequadas e íntegras, por conta disso, repudiam a “ideologia de gênero”, que é vista como pecado e degeneração dentro das instituições religiosas. Possuem um discurso extremamente forte em relação ao que chamam “kit gay”, que estaria corrompendo as crianças na escola. Segundo eles, seriam materiais didáticos e ações que estariam “ensinando para meninos que ser menino é

errado e para meninas que ser menina é errado”. São extremamente críticos ao feminismo, especialmente, na questão do aborto. Nesse contexto, seu discurso deixa claro que pautas defendidas pelo movimento feminista, movimento LGBTQ e projetos de discussão de gênero e sexualidade nas escolas estão promovendo a “destruição da família tradicional”.

14) Fieis religiosos

Cristãos pela “família tradicional”

Perfil: Este perfil se expressa pela pluralidade religiosa – são evangélicos, católicos, espíritas, entre outras crenças. Muitas vezes são indivíduos que colocam a religião e suas crenças como balizas de suas opiniões políticas. Como não há uma faixa etária, classe e nem mesmo um gênero que prevaleça nestegrupo, este perfil se sobrepõe aos demais. Nas manifestações públicas têm havido uma espécie de articulação entre representantes de grupos católicos,

evangélicos e defensores do estado de Israel – estes últimos, sobretudo, alertando para os riscos do que eles chamam de processo de “islamização do mundo”.

O que repudiam: Possuem a percepção de que a “família tradicional” vem sendo ameaçada nos últimos tempos e que o PT corroborou para que isso acontecesse, sobretudo com aquilo que propunham para a educação das crianças, levando “ideologia de gênero” e o “kit gay” para dentro das escolas. Acreditam que nos últimos tempos houve, no Brasil, uma inversão de valores onde há defesa do criminoso e não da vítima, o aumento do incentivo ao consumo de drogas, ao aborto e a promiscuidade por parte de jovens esquerdistas e feministas. Estes

grupos estariam subvertendo a família tradicional em favor de uma possível “ditadura gayzista”.

Para este perfil, os valores cristãos e os preceitos de Deus estão sendo abandonados em detrimento de “um império de pecadores”. Além disso, também possuem um grande repúdio pela corrupção. Por vezes, até repudiam as falas de Bolsonaro, por serem contrárias ao que prega o cristianismo, mas “lutar contra a corrupção perpetrada pelos políticos é o mais importante”.

15) Monarquistas

O retorno a um passado glorioso

Perfil: Composto por um perfil diversificado, organizam-se através de encontros, conquistando uma série de adeptos nos estados do Rio de Janeiro e em São Paulo, que inclusive deram sustentação à eleição de Luiz Philippe de Orleans e Bragança, considerado príncipe na linha sucessória, como Deputado Federal. Luiz Philippe chegou a ser cogitado como vice-presidente na chapa de Bolsonaro, entre alguns apoiadores, seria uma figura até mais querida do que a

de um membro do exército. A figura do “príncipe” é importante na campanha do candidato para ajudar a conformar um ideal de “passado glorioso”, que é evocado seja pelos tempos imperiais, seja pelo tempo dos militares. Em ambos os casos, se busca reforçar a “manutenção da ordem”. Assim, como a glorificação dos tempos da ditadura militar, a figura dos monarquistas ajuda a construir imagens de um passado utópico em relação a um futuro distópico e caótico.

O que repudiam: Possuem um profundo desprezo pelas correntes de ideias à esquerda e pela Teologia da Libertação, que para o grupo, agiria na ilegalidade “amordaçando a nação e excluindo fatos do passado histórico monárquico”, investindo assim contra os principais fundamentos da sociedade: a propriedade privada e a livre iniciativa. Não reconhecem a Proclamação da República do Brasil apontando que ela não poderia ter sido aceita na época porque não obteve apoio popular. A solução então seria da restauração dos poderes

monárquicos, restabelecendo a família imperial Orleans Bragança na linha sucessória. O modelo seria de separação entre Chefe de Estado e Chefe de Governo e com parlamentares sendo votados pelo povo, garantindo assim “estabilidade”, “unidade” e “continuidade”, já que a República teria provocado uma situação política e social muito instável. De acordo com o grupo, o regime monárquico seria uma saída para acabar com “tudo que está aí”.

16) Isentos

“Política não se discute”

Perfil: Esse perfil é composto pelos indivíduos que expõem suas opiniões publicamente, exceto em círculos de amigos restritos e reuniões familiares. Estão incluídos nesse grupo pessoas que mantém a opinião de que “religião, política e futebol não se discute”, ao menos em público. Característico desse perfil são as pessoas que defendem que Bolsonaro não representa a solução

para os problemas do país, mas possuem um forte sentimento antipetista, anticorrupção ou antissistema. Pensam que algo precisa ser mudado e isso se materializaria com a saída do PT do governo. Este perfil repudia a violência e é formado também por aqueles que têm vergonha de admitir que votariam em Bolsonaro ou por aqueles que tendem a acompanhar o voto de seus familiares.

O que repudiam: Por não se envolverem em debates no espaço público e acreditarem que a discussão sobre política não provoca nada além de brigas e desavenças, têm uma forte repulsa à atual situação em que amigos rompem amizades e familiares se afastam. De alguma forma, localizam como fonte do problema a polarização política que gera belicosidade nas relações cotidianas e, inclusive, nas redes sociais. Tendem a ver que a polarização foi iniciada pelo PT,

embora tanto a direita quanto a esquerda são vistos como agentes da violência, reforçando sua posição apaziguadora de conflitos. Em seu discurso, também está presente uma forte repulsa à corrupção, o que na verdade alimenta seu antipetismo, argumentam que a corrupção passou dos limites e que ela é uma das maiores responsáveis pela crise econômica do país.

“ E se o conluio do Moro fosse com a defesa do Lula. Seria normal? ”

Moro não vê nada demais no vazamento de suas conversas com o Dallagnol. Podem publicar tudo, afirma desafiadoramente.

Óbvio que o ministro não vê nada demais. Ele está no centro do escândalo.  

E mesmo que visse, daria de ombros. O ministro da justiça faz pouco caso das leis, da constituição, do país, da democracia, do povo e do cargo que ocupa. Sua postura é simplesmente abjeta.

Agora, para os que ainda apoiam o ex-juíz e o procurador, imaginem vocês se o Moro fosse pego em conluio com os advogados de defesa do Lula. Indicando testemunhas. Recusando procuradora. Direcionando procedimentos. Vazando conversas particulares e de autoridades para mídia, mesmo ilegais. Fornecendo detalhes da operação. Interferindo no processo. Evitando arrolar ex-presidente com receio de causar melindres e etc.

Como vocês se sentiram sabendo de tudo isso e percebendo que o governo, a PGR, o STF e a mídia tentam colocar panos quentes?  Não seria uma tremenda sacanagem esse comportamento? Estaríamos à beira de uma guerra civil, no mínimo, não é mesmo?

Além do que esta violação das leis corrói as bases do republicanismo. Abre as portas para uma ditadura. Funda também a indústria de julgamentos. Um bilionário acusado de crime poderia facilmente comprar o juiz do processo para que ele assessorasse a sua defesa.

Moro é um cumpridor de ordens. Alguém “americano” determinou:  vá lá e faça isso e aquilo. Aja do seguinte modo e etc.  

Esse alguém “americano” o treinou e o instruiu como proceder no caso Lula. E pelo andar da carruagem a operação só deve explicação aos americanos, não é mesmo?

Cito americanos porque foram os que mais lucraram com a operação Lava-Jato. Além do mais, Moro já trabalhou para eles solicitando a emissão de identidades falsas, criação de contas bancárias para os agentes “yankees”, em 2007, lembram-se? Pois é, antecedentes há.

Advogados, juristas, criminalistas, juízes, governadores, jornalistas, professores de direito estão abismados com que leram dos diálogos. Não há mais dúvida, Moro e procuradores transgrediram as leis. O juiz nunca foi imparcial.

Portanto, se existe ainda um pouco de vergonha na cara e coragem para fazer o certo as autoridades, notadamente o STF, devem anular o julgamento e o Lula colocado em liberdade imediatamente.

Mas, infelizmente, o Brasil está entrega a gente despreparada, raivosas, odiosas, preconceituosas e ideologicamente ultrapassadas logo será difícil a justiça prevalecer.

Moro e procuradores não podem ser comparados ao impoluto Robespierre, dos bons tempos da revolução francesa. Temos que retornar ainda mais no tempo.

Os “lavajatense” assumiram postura templária. Como cruzados, se acham escolhidos por Deus para colocar a nação nos trilhos da bem-aventurança. E livrar este país utópico dos esquerdistas, progressistas, nacionalistas, petistas e do próprio Lula.

Resumidamente, estamos diante de um messianismo tupiniquim.

Essas pessoas (juízes, procuradores, delegados, mídia e outros) pecam pela falta de dignidade e de firmeza de caráter. Pois, se eles mesmos acreditassem piamente que suas transgressões foram por um bem maior afirmariam: sim, transgredimos, mas foi pelo bem do Brasil e de sua população. Pronto, virariam super-herois.

Mas não, na primeira ameaça se acovardam, se escondem, mentem e tentam confundir os brasileiros. Atitude típica de bandidos.

Crime não se combate com crime, sob pena de se tornarem criminosos contumazes.

Conforme o ministro da justiça afirmou ele conta com o apoio do Bozo (vai contando, o general Santa Cruz também confiou no cara), das pessoas (sua popularidade está em baixa) e de “autoridades” (generais raivosos, milícias e fascistas em geral), então não há nada a temer.

E se nada acontecer com esses quadrilheiros disfarçados de justiceiros o país continuará dividido e o ódio dominando a sociedade.

O país ficará impossibilitado de acordar qualquer pacto social.

Outra coisa. O transgressor Deltan queria administrar alguns bilhões de reais. Meu Deus! O que será que ele faria com todo esse dinheiro e poder? Escrúpulo, com certeza, não seria obstáculo.

“ Agora é povo na rua. Greve geral . E Lula Livre.”

Se já havia motivos de sobra para greve geral do dia 14, depois do  ‘’The Intercept ‘’ publicar  os diálogos entre Moro e Dallaganol as razões  quadruplicaram.

Pela conversa percebe-se que os sacanas urdiram a prisão do Lula, sem provas.

Tramaram contra a democracia. Humilharam o STF, o legislativo e o executivo. Rasgaram a constituição. E fizeram de palhaços os manifestantes que os  apoiaram. E, principalmente, manipularam as eleições. A vontade do povo não foi respeitada. E agora temos aí um Bolsonáro, com soldados graduados sem farda ocupando vários cargos. Estamos a um passo da ditadura de fato.

Todos sabem, se o Lula concorresse, ganharia. Com os pés nas costas. Mas estava preso e incomunicável, de propósito. E pouco pode fazer.

Consequentemente, o Brasil foi tomado por essa quadrilha de inescrupulosos, vendidos, entreguistas e lesas-pátrias. Milicianos.

Um pessoal sem compromisso nenhum com o país e com sua população. Uma vergonha que extrapola as fronteiras. Destroem o Brasil numa boa.

É muita canalhice. Em nome dos milhões de desempregados, essa quadrilha não pode ficar impune. Não pode.

Temos que ter novas eleições. A de 2018 foi fraudada, como está provado com as conversas entre o juiz e o procurador.

Agora a solução não vai cair do céu.

Esperar que o STF liberte o Lula, anule o “impeachment”, reveja  todas as medidas presidenciais tomadas  pós Dilma e chame novo pleito é não quere ver que as ameaças dos  militares ainda pairam sobre os ministros do Supremo e sobre a democracia.  Portanto desse mato não sai cachorro.

 O único ator, e sempre ele, que poderá fazer alguma coisa é o povo.

Temos que tomar conta das ruas. Com sangue nos olhos.

Falar não a perda de direitos. Não a reforma da previdência. Mas também  gritarmos por Lula Livre. E novas eleições, imediatamente.

Sob o risco de ser tarde demais quando agirmos.

Tudo isso que fizeram com o país é por demais nojento.  O pais está sujo, imundo precisamos limpá-lo.”

Chico Buarque ganha o Prêmio Camões.

 

Reproduzo excelente artigo do jornalista Pedro Tadeu dissertando sobre a premiação de Chico Buarque.

“Pedro Tadeu, DN

Quando recebi no celular o alerta “Chico Buarque ganha o Prémio Camões” senti-me no direito de comemorar uma vitória: “ganhei eu, caramba, ganhei eu!“.

Fui ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do galardão literário pela “contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa“.

E o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com Chico Buarque?

Aos cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai tocava “A Banda“, a música que, quando passava, diz o verso final do refrão, ia “cantando coisas de amor“. Chico Buarque impulsionou-me a dança.

Aos 10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de “Construção“, que “morreu na contramão atrapalhando o sábado“. Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.

Aos 11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino MPB4 repetia, em Partido Alto, “Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?“. Chico Buarque deu-me razões para ser ateu.

Aos 12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram séculos a fechar: “E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um Império Colonial“. Chico Buarque ofereceu-me uma identidade, um medo e uma esperança na Lusofonia.

Aos 13 anos de idade percebi, pela letra do pseudônimo Julinho da Adelaide (um autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até falsas entrevistas deu aos jornais…), que confiar na polícia pode ser perigoso, como constata Acorda Amor: “Tem gente já no vão de escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão“. Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se ficar do lado errado.

Aos 14 anos de idade conspirei o sentido da canção O Que Será (À Flor da Pele): “Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido…” Chico Buarque revelou-me o secreto significado da palavra “liberdade“.

Aos 15 anos de idade compreendi, ao ouvir Mulheres de Atenas, que a minha mãe, a minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas“. Chico Buarque justificou-me o feminismo.

Aos 16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de O Meu Amor. “Eu sou sua menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me faz“. Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par com a palavra afeto.

Aos 17 anos comovi-me com Geni e o Zepelim, a prostituta que salva a cidade mas que a cidade despreza: “Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!”. Chico Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.

Aos 18 anos de idade a história de O Malandro exemplificou-me como é sempre o mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode expiatório: “O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação“. Chico Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.

Aqueles anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que suficiente para a atribuição do mais importante prêmio literário em Língua Portuguesa.

Aqueles anos foram os tempos que moldaram o meu carácter.

Aqueles foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu tirei.

Mas, tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: “ganhei eu, caramba, ganhei eu!”.

Só fascistas podem achar que a arma é solução para os conflitos agrários.

Tuitou o bolsonáro,  cantando vitória: “Incra registra só 1 ocupação no 1º trimestre diante 43 ações no mesmo período de 2018. O MST está mais fraco pela facilitação da posse de armas, iniciativa que terá derivações pelo governo, falta de financiamento do setor público e de ONGs, algo que não ocorria nos governos do PT”

Não entendi bem, o MST está mais fraco por que o presidente facilitou a posse de armas pelo Movimento? Ou está mais fraco por que a facilitou a posse de armas para os grileiros e latifundiários e restringiu o uso das mesmas pelos Sem Terra?

Se for a segunda interpretação então é uma grande sacanagem o que o Jair está promovendo. Se os assassinatos de trabalhadores rurais já era uma rotina no campo,  imagine agora com seu aval, será um verdadeiro genocídio. Seremos os primeiros em números de mortes.

Na cabeça doentia do presidente ele deve achar que resolveu um problema social persistente.

Não haverá mais conflitos no campo, deve pensar. Bolsonaro, o Messias, encontrou a solução, liberar a posse de armas e as ocupações cessam. Ameaçar de morte os integrantes do MST e a desordem cessa.

Pobre coitado! Jair mais uma vez está surtando.

O MST foi forjado na luta, no enfrentamento. Está acostumado a encarar este tipo de gente. Sejam eles coronéis, pistoleiros, policiais ou  jagunços.

Há muito o campo está armado, só de um lado. Os massacres dizem tudo. Eldorado dos Carajas e Pau d´Arco, ambos no Pará, são exemplos de execuções perpetradas por policiais. E os nove trabalhadores rurais brutalmente assassinados no Projeto de Assentamento Taquaruçu do Norte, em Colniza. Torturados, amarrados e degolados.

E os assassinatos de lideranças? Quem não se lembra de Dorothy Stang, freira morta por pistoleiros? Ou do Chico Mendes? Ou de Nilce de Souza Magalhães? Ou de sindicalistas rurais? Há muitos, muitos outros. É uma vergonha o que acontece no interior desse país.

E como se percebe, a luta por justiça, por igualdade continua firme e forte.

Então, o bozo não deve justificar suas sandices baseados apenas em opiniões. Fazendeiros armados inibem ocupações? Desde quando?

 Isso é muito grave. Mas não há surpresa na publicação do Jair.

O presidente mostra, mais uma vez, o desconhecimento total de como é formada a nação brasileira. As forças atuantes. A realidade e os sonhos de uma população tão diversificada.

Quando elogia o armamento da população de “bem” esquece ele que o outro lado também pode se armar, pois a partir do momento que o executivo mostra claramente que pende para um lado o outro tem que se proteger de alguma maneira, ou não? Ou ele pretende que viremos  carneirinhos sem qualquer perspectiva de melhora de vida, e cale a boca e vá trabalhar?

Apenas fascistas podem crer que a arma é o início, o meio e o fim de um país civilizado.

Enquanto isso o Lula segue preso, injustamente. Pode uma coisa dessa?

Continuando assim, estamos fadados a não ver país nenhum.

Estão certos os que dizem que o “bozo” é um idiota, um pateta, um energúmeno, um troglodita, um covarde, um violento, um ignorante, um ditador… Com certeza ele já demonstrou ser tudo isso. Mas, pergunto, há alguma surpresa no que ele é? Claro que não. Aliás, seu único mérito foi o de nunca ter escondido o seu perfil.

Na mente doentia do presidente Deus o escolheu para realizar o trabalho “sujo”, ou seja, distrair e exterminar os ditos “comunistas” deste país. E depois da América Latina e, quem sabe, do mundo.

O lema “Brasil acima de tudo” não é apenas uma falácia. É um modo de ele ver e sentir a realidade a partir de suas loucuras. Não duvido que, nos seus momentos de alucinação, se veja esmagando as esquerdas com os pés.

E nessa empreitada quixotesca se cercou dos mais insanos personagens.

Quem de fora analisa fica impressionado com essa equipe de governo. Um verdadeiro balaio de gato, a princípio. É ministra vendo Jesus na goiabeira. É chanceler falando em “maxismo cultural” e anti-globalismo. É outro estapeando a língua pátria. Um astronauta que até agora não disse a que veio e segue no mundo da Lua. Um astrólogo promovido a Rasputin. Ministro da educação que não vê motivo para faculdades do nordeste ensinarem filosofia e sociologia. E por aí vai.

Excetuando os desatinos das “otoridades”, parece não haver outro tipo de conexão e afinidades entre eles, tal a quantidade de contradições e estupidezes que vomitam diariamente. Mas não é bem assim.

Se olharmos desapaixonadamente para a horda ministerial veremos que há um ponto em comum entre eles.

São todos anticomunistas e antipetistas. Neste quesito seguem a cartilha bolsonarista à risca. Exceção talvez seja o Guedes, que tem interesses próprios de enriquecimento.

Delirando, o “coiso” não se dá conta que o preço a ser pago pelo holocausto da esquerda é alto de mais. Mesmo pra turma de aloprados. Custará, no mínimo, um país. E tantas outras futuras gerações.

Vejamos. Retirou a necessidade do visto dos americanos. Sem contrapartida.  Aqui virou a casa de Maria- Joana. Entra qualquer um. Pode ser bandido. Pedófilo. Escroque. Mafioso. Ou caravanas de homens fazendo turismo sexual. Não importa.

Entregou a base de Alcântara. Sem contrapartida. O brasileiro não entra sem permissão dos “yankees”.

E mais recentemente, declarou que pretende explorar a Amazônia em parceria com os americanos. Novamente, sem contrapartida.  

Pode um absurdo destes? Sim, pode. E irá fazer. Caso tenha que acabar com territórios indígenas, não pensará duas vezes.

No romance ficcional de Ignácio de Loyola Brandão “Não Verás País Nenhum” há um trecho interessantíssimo. A Amazônia foi transformada em um imenso deserto. Maior que o Saara. E a propagando oficial canta loas sobre este feito. Se os gringos entrarem oficialmente… sei não. É capaz da vida imitar a arte, não acham?

Bem, acima são apenas alguns exemplos, há tantos outros. Programas sociais ameaçados, reforma da previdência, trabalhista e educacional, conselhos e comissões fechadas. Liberdade de imprensa censurada. Liberação de armas e etc.

Vivemos o presidencialismo de “faz-de-conta” e o parlamentarismo “de mentirinha”.

Bolsonáro mesmo afirmou que não nasceu para ser presidente e sim, militar.  E, no frigir dos ovos, não é uma coisa nem outra. Terceirizou o poder. Está no limbo. Fragilizado, procura ajuda do império. No caso o  Trump. Além dos dois serem  lunáticos e, portanto, terem afinidades, o país norte-americano ainda é a maior potência do planeta e, aos seus olhos, garantidor de sua cruzada.

Ministros governam. Os postos Ipirangas. Falta saber quem de fato é o chefão da turma.

O que sobra são asneirices. Para todos os gostos. Mentidos e desmentidos.

O “presidente” vetou o aumento do diesel.  Guedes, pego de surpresa, falou que com uma boa conversa o “coiso” volta atrás e dá o aumento. Simples assim. Em outras palavras, basta enrolar o presidente e teremos o reajuste do diesel.

Subalterno crescendo e desmerecendo quem de direito tem o poder.

E depois há quem ache ser por demais desrespeitoso afirmar que o “bozo“ é um idiota, um pateta, um energúmeno, um troglodita, um covarde, um violento, um ignorante, um ditador…

E o Lula preso, pode uma coisa dessa?