Yoani Sanches, a blogueira cubana.

yaone sanchesA blogueira cubana Yoani Sánches está cá na nossa pátria.  Considerada uma dissidente do regime da ilha, veio proferir uma série de palestras, ou apenas falar mal, dos governantes da Ilha. É uma “guerreira” pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos.

Em suas aparições houve manifestações contra sua presença. Que a mídia tratou de transformar em um quase linchamento.

Sánches, assustada, não entendeu o porquê dessa demonstração de repúdio contra sua pessoa. Apesar de dizer que prefere isso ao controle exercido em Cuba contra os discordantes.

Vamos aos motivos. Para o Brasil ser considerado um país pleno de justiça falta percorrer um longo caminho. A sociedade carece de democracia em muitos setores da sociedade. Educação, saúde, segurança, oportunidades estão longe de receber esse ar puro. Cuba está muito na frente nesses quesitos.

Liberdade de expressão então… Por estas bandas, não há.

Somos um país carente de pluralismo de opiniões. Lutamos contra o monopólio de informação.

Porém, cada vez que tocamos no assunto de regulamentação da mídia os empresários do setor colocam no circuito um ente mítico, a senhora “liberdade de imprensa”.

Pintam um quadro apocalíptico. Apavoram a população com uma ditadura que está por vir. Diga-se de passagem, ditadura que já tivemos e que foi apoiado por esses mesmos senhores que aí estão.

O que temos, definitivamente, é a imprensa controlada por uma pequena oligarquia.  Que não deseja perder seus privilégios. Manipulam, mentem e criam fatos segundos os seus interesses. Constroem e destroem pessoas.  Os latifundiários da informação estão acostumados a ter a seus pés a grande maioria dos políticos. Esses homens públicos tornam-se capachos. Ou menos ainda. Com as sucessivas derrotas nas eleições cooptar fantoches não ficou tão simples assim.

E o domínio fácil diminuiu mais ainda graças a internet. Agora temos a oportunidade te ler outros pontos de vistas diante dos fatos.

Mas, jornalistas, que tentam dar essa outra visão ou denunciar as maracutaias, são punidos com censura ou perseguidos e processados. Até se calarem. Não é o que acontece com você? Aqui não é o pode executivo que censura, é o judiciário.

Esta grande imprensa, não contente em ficar apenas no ambiente nacional, tripudia também sobre os outros governos progressistas da América do Sul. Equador. Bolívia. Venezuela. Uruguai. Argentina. São os seus pratos preferidos. Rafael Correa foi anunciado como um grande censor porque vai regular a “ley dos medios”.  Enquanto o golpista do Paraguai é citado como exemplo de governante.

Cuba, então, nem se fala. É demonizado. É o país da ditadura. Da miséria. Da opressão.

Talvez os nossos oligarcas estejam com saudade daquela Cuba de Fulgêncio Batista. Quando a ilha era o grande cassino/prostíbulo do continente.

A oposição brasileira está raivosa, como disse Lula. Sem perspectiva. Sem direção.  E você sabe: pra quem está morrendo afogado, jacaré é tronco. Eles se agarraram, então, a essa mídia. O sonho é um golpe de estado. À volta ao poder.

O Supremo Tribunal Federal é usado para enfraquecer a situação. De maneira vil.

O PSDB abriu espaço no congresso nacional para recebê-la.  Pagou o seu deslocamento e estadia. Pergunto: é justo parar um poder da república para receber uma simples ativista, que nem tão ativista é?

Você foi cercada e apoiada pelo que de mais retrógrado existe neste país. Você sabe quem é Jair Bolsonaro? Ronaldo Caiado?

Você tem noção que estamos num estágio crítico de consolidação das instituições democráticas? Que pela primeira vez, em quase oitenta anos, não estamos sendo governado pela elite? E que, por isso mesmo, este governo é combatido de formas execráveis? Que pessoas são vilipendiadas em sua honra? E que a imprensa assumiu o papel de oposição?

Claro que não sabe de nada disso. Pois você se deixou levar como uma cordeirinha. Não sei se é uma sem noção ou a mais esperta das mocinhas desse filme de hollywoodiano.

Os Estados Unidos tentam matar Fidel Castro desde sempre. Nunca conseguiram.  Por que acha que até hoje ele se mantém no comando?  É à toa?  E por que com todo embargo econômico à ilha ela sobrevive e prospera? Acha que é sorte? Não há governo que perdure por tanto tempo sem apoio do povo? Ou você acha que os americanos teriam escrúpulos em invadir o seu país e restabelecer a o antigo “status quo” se sua população estivesse sendo massacrada? Cuba não é a Coreia do Norte.

Os yankees estão sonhando com uma “primavera árabe” cubana. Você é o meio. Está sendo usada. E está gostando.

Senão fosse tão patético daria uma boa anedota. Cara blogueira, para ilustrar, você está contando piada racista num encontro contra o racismo. Ninguém vai achar graça. Não pode.  Só por ignorância.

Você está falando em liberdade de expressão num país onde não há.

Estamos lutando para que isso aconteça. E você está vitaminando os nossos reacionários.

Eis as razões dos apupos. E da gritaria. E viva a democracia.

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Repórteres sem Fronteira e o país dos 30 Berlusconis.

rsfimagemA ONG “Repórteres Sem Fronteira”, RSF, publicou nessa última semana o Relatório Anual sobre as condições de trabalhos de jornalistas e da liberdade de expressão pelo mundo.

Sobre o Brasil relata  as recentes conquistas no campo social, econômico e político. Cita que o país “aparece como um novo poder mundial, feito conseguido durante os dois últimos mandatos de Inácio Lula da Silva como presidente, 2003-2011” e que “Apesar de uma previsão de redução da taxa de crescimento para 2013, os indicadores de crescimento são favoráveis ​​mesmo com um mundo em crise”.  Lembra, ainda, que o país é o único a quem foi concedido o direito de sediar os dois maiores eventos  esportivos, sucessivamente: a copa do mundo de futebol e os jogos olímpicos. Um evidente sinal de prestígio mundial, conclui.

No entanto, quando o  assunto é mídia o país recebeu inúmeras críticas.

O Brasil é o quinto em assassinato de jornalistas. Foram 11 mortes em 2012. A imprensa continua  monopolizada.

Somos a nação dos “30 Berlusconis”, segundo Eugênio Bucci, professor universitário e colunista regular do jornal O Estado de São Paulo e da revista Época.  Referindo-se a Silvio Berlusconi detentor de grande parte dos meios de comunicação na Itália.

Escreve que “A forma da propriedade da mídia no Brasil afeta diretamente o livre fluxo de notícias e de informação e obstrui o pluralismo. Os Dez principais grupos empresariais são  propriedade  de famílias que controlam  o mercado de mídia de massa.

A radiodifusão é dominado pela  carioca Globo, de propriedade da família Marinho, seguido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), de propriedade do Grupo Silvio Santos, Rede Bandeirantes propriedade do grupo Saad, e Record (de propriedade do bispo protestante evangélico Edir Macedo). Na mídia impressa, o pacote é novamente liderado pelas organizações Globo, como diário O Globo, que é rival a nível nacional, do grupo “Folha de São Paulo”, de propriedade da família Frias Filho, e do grupo “O Estado de São Paulo”, de propriedade da família Mesquita, e pela Editora Abril, que publica semanalmente a revista Veja, entre outras revistas.”

Afirma que a “Concentração dos meios de informação, nacionalmente e regionalmente, e o  assédio e a censura no nível mais local são características distintivas da ditadura militar de 1964-85”.

Em relação a Internet somos a mais censurada da América do Sul. Como exemplo cita o blog de Fábio Pannunzo, que entre vários processos destaca  dois que “são o resultado de uma queixa apresentada pelo secretário de  Segurança Pública do Estado de São Paulo Antônio Ferreira Pinto, acusado por Pannunzio  de encobrir abusos de direitos humanos por parte da polícia.  Conforme Fábio “Cobri os mesmos casos no ar para a TV Bandeirantes como eu fiz no meu blog, mas, curiosamente, eu nunca foi processado como um repórter de TV, apenas como um blogueiro “. Ele terminou com o blog.

Há vários outros blogueiros sendo processados ou mortos. José de Abreu está nesse rol por ter criticado Gilmar Mendes, ministro do supremo, no seu microblog.

“Você conhece algum país democrático, onde os políticos são os donos de canais de notícias e ao mesmo tempo têm a competência para atribuir concessões onde ele mesmos serão os beneficiados? ” Bucci perguntou. “A Constituição proíbe expressamente tal sobreposição de interesses. Assim como proíbe monopólios e oligopólios. Mas nenhuma lei define um monopólio ou oligopólio, aí eles podem colocar um irmão, primo ou tio como homem de frente” reclama Bucci.

Há também a questão da verba publicitária. O relatório qualifica de quase incestuosa essa relação.

“Em 2009, o governo federal gastou mais de 1,5 bilhões de reais (600 milhões de euros) em publicidade nos meios de comunicação de propriedade privada.  Em 2010, o governo municipal de São Paulo gastou dos 110 milhões de reais (40 milhões de euros) e o governo do estado de São Paulo passou dos 266 milhões de reais (97 milhões de euros) em anúncios de mídia. “Os principais grupos de mídia, como Folha, Estado e Globo sobreviveriam sem esses pagamentos no entanto a média  e pequena empresa não sobreviveria “.  Dessa forma o estado contribui para a continuidade da monopolização dos meios de comunicação, pois 60 % deste total fica com a grande imprensa.

A grande imprensa sempre se refere ao ex-presidente Lula como um caudilho, demagogo, populista, direta ou indiretamente. E tentam passar essa imagem para a população.

Porém se formos analisarmos os verdadeiros coronéis, caudilhos e manipuladores são os donos desses conglomerados. Eles se portam realmente como os antigos “coronéis”. Mandam e  desmandam. Abrem e fecham. Constroem e destroem.

Atualmente graças a tecnologia e a coragem de alguns jornalista o cidadão comum tem acesso a outras informações. E não só aquelas que eles tentam transmitir. O pluralismo de informação faz a diferença num estado democrático.

Acabar com esse monopólio não é fácil. Mas não é impossível.  A Argentina trava atualmente uma briga enorme com o grupo Clarin. Ley dos Medios, assim é chamado a lei que obriga o fim dos privilégios desses grandes grupos.

O pluralismo e o livre fluxo de informação faz bem para a democracia.

Aron Swartz e a liberdade na Internet.

aaron swartzNo dia 11 de janeiro último Aaron Swartz foi encontrado morto dentro de seu apartamento, em Nova York. Enforcou-se aos 26 anos de idade.

O motivo do suicídio seria um processo, movido pelo governo americano, em que era acusado de ter “hackeado” cerca de 5 milhões de trabalhos acadêmicos, protegidos por direitos autorais. Poderia pegar uma pena de 35 anos de reclusão e multa de 1 milhão de dólares. Ele negava que tivesse feito isso por dinheiro.

Este jovem era considerado um gênio. Do nível de um Steve Jobs. Muito criativo e com futuro brilhante.

Participou na criação do RSS,  do Reddit , Creative Commons,  WatchDog, Open Library, Demand Progress.

RSS é uma tecnologia que nos permite receber informações atualizadas de blogs e sites diferentes sem a necessidade de visitá-los um por um.

Reddit  é um site em que as pessoas podem votar e discutir assuntos  de links publicados em sua plataforma.

Creative Commons  é uma organização que tem por meta divulgar, compartilhar e expandir obras sem cobrança.

WatchDog permite a criação de petições públicas.

Open Library. Bibiloteca Universal. O Objetivo era ter uma página para cada livro publicado no mundo.

Demand Progress é uma plataforma ativista. Ajuda a petições ganharem forças através de campanhas na internet.

Fica claro, pelos projetos que participou, que em sua alma havia uma grande preocupação: a divulgação da informação sem restrição. Segundo ele:   “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”. E lutou contra essa tentativa de monopolização da informação.

A sua briga era para que a internet não perdesse ao seu objetivo principal: a livre circulação da informação.

A rede mundial , no seu início,  teve grande influência dos jovens da contracultura. Da utopia de um mundo sem fronteira. Da liberdade de expressão. E assim foi desenvolvida.

Como escreveu Manuel Castells em seu livro “A Galaxia da Internet”, o poder tem medo da internet.

Tem medo porque o conhecimento é o poder. Tem medo porque o poder é centralizador. É pra poucos, imaginam eles. E para sempre.

E a internet é a ferramenta que  trabalha contra esse interesses da elite. Contra o privilégio e a manipulação.

Governos tentam controlá-la. Até o momento, sem sucesso absoluto. Julian Assange, fundador da WikiLeaks que o diga. É perseguido de maneira implacável.

Mas aos poucos as oligarquias estão conseguindo seu objetivo de fiscalizar. Os capitalistas querem transformar a informação  em mercadoria. Querem  estabelecer protocolos de censura. Os Estados Unidos quase conseguiram emplacar o tal de SOPA (Stop Online Piracy Act, Lei de Combate à Pirataria Online).  O que parecia uma simples medida contra delitos se revelou na verdade um ato contra a independência da internet .

Os efeitos colaterais seriam graves, se aprovado. Qualquer expressão artística, científica, política, notícia, ou declaração teria que ser autorizada. Pelo autor ou pelo governo. Censura prévia. As manifestações contra o ato foram intensas. Por enquanto está engavetado. Mas pronto para ser disparado.

E quantos trabalhos científicos não podem ser divulgados devido a lei de autoria? Qual o grau de prejuízo que uma atitude dessas está acarretando para a humanidade?

Podemos fazer um exercício de imaginação. Um desses relatórios trancados, por exemplo, pode conter o caminho para cura do câncer. Falta pouco, porém o laboratório não libera. Quantos cientistas, pelo mundo, com essas informações, poderiam ajudar a encontrar a terapia contra esse flagelo? Mas não. O conhecimento é mercadoria. Só pagando, caro. E às vezes nem assim.

Outra coisa, a empresa Google tem um projeto de digitalizar obras de artes, livros das mais diversas áreas, museus, teses universitárias  e o que mais lhe der na cabeça. Num primeiro momento parece ser algo muito bom. Por exemplo, muitas pessoas, que não podem conhecer o Louvre pessoalmente teriam a oportunidade de fazê-lo virtualmente.

Só que teríamos um problema, caso esse projeto for adiante. Qualquer tipo de pesquisa terá que, necessariamente, passar por eles.

O que ocorreria então? Lembrem-se, estamos tratando com empresa capitalista. Eles, num futuro, poderiam cobrar. Manipular. Transgredir. Restringir o acesso de determinadas universidades. De grupos. De certos países. Teriam o controle. Ou seja, teriam o poder. E quanto poder.

A centralização é contra o conceito da internet. Não podemos permitir que esta poderosa e, por enquanto, democrática ferramenta sucumba nas mãos de poucos. Se elitize.

Foi por essa liberdade, por esse espalhamento de conhecimento que Swartz batalhou. Até o fim.

Ele tranquilamente poderia estar rico. Ser um Zuckerberg, criador do facebook.  Preferiu trilhar outras estradas.

Que seu ativismo não seja em vão.