Repórteres sem Fronteira e o país dos 30 Berlusconis.

rsfimagemA ONG “Repórteres Sem Fronteira”, RSF, publicou nessa última semana o Relatório Anual sobre as condições de trabalhos de jornalistas e da liberdade de expressão pelo mundo.

Sobre o Brasil relata  as recentes conquistas no campo social, econômico e político. Cita que o país “aparece como um novo poder mundial, feito conseguido durante os dois últimos mandatos de Inácio Lula da Silva como presidente, 2003-2011” e que “Apesar de uma previsão de redução da taxa de crescimento para 2013, os indicadores de crescimento são favoráveis ​​mesmo com um mundo em crise”.  Lembra, ainda, que o país é o único a quem foi concedido o direito de sediar os dois maiores eventos  esportivos, sucessivamente: a copa do mundo de futebol e os jogos olímpicos. Um evidente sinal de prestígio mundial, conclui.

No entanto, quando o  assunto é mídia o país recebeu inúmeras críticas.

O Brasil é o quinto em assassinato de jornalistas. Foram 11 mortes em 2012. A imprensa continua  monopolizada.

Somos a nação dos “30 Berlusconis”, segundo Eugênio Bucci, professor universitário e colunista regular do jornal O Estado de São Paulo e da revista Época.  Referindo-se a Silvio Berlusconi detentor de grande parte dos meios de comunicação na Itália.

Escreve que “A forma da propriedade da mídia no Brasil afeta diretamente o livre fluxo de notícias e de informação e obstrui o pluralismo. Os Dez principais grupos empresariais são  propriedade  de famílias que controlam  o mercado de mídia de massa.

A radiodifusão é dominado pela  carioca Globo, de propriedade da família Marinho, seguido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), de propriedade do Grupo Silvio Santos, Rede Bandeirantes propriedade do grupo Saad, e Record (de propriedade do bispo protestante evangélico Edir Macedo). Na mídia impressa, o pacote é novamente liderado pelas organizações Globo, como diário O Globo, que é rival a nível nacional, do grupo “Folha de São Paulo”, de propriedade da família Frias Filho, e do grupo “O Estado de São Paulo”, de propriedade da família Mesquita, e pela Editora Abril, que publica semanalmente a revista Veja, entre outras revistas.”

Afirma que a “Concentração dos meios de informação, nacionalmente e regionalmente, e o  assédio e a censura no nível mais local são características distintivas da ditadura militar de 1964-85”.

Em relação a Internet somos a mais censurada da América do Sul. Como exemplo cita o blog de Fábio Pannunzo, que entre vários processos destaca  dois que “são o resultado de uma queixa apresentada pelo secretário de  Segurança Pública do Estado de São Paulo Antônio Ferreira Pinto, acusado por Pannunzio  de encobrir abusos de direitos humanos por parte da polícia.  Conforme Fábio “Cobri os mesmos casos no ar para a TV Bandeirantes como eu fiz no meu blog, mas, curiosamente, eu nunca foi processado como um repórter de TV, apenas como um blogueiro “. Ele terminou com o blog.

Há vários outros blogueiros sendo processados ou mortos. José de Abreu está nesse rol por ter criticado Gilmar Mendes, ministro do supremo, no seu microblog.

“Você conhece algum país democrático, onde os políticos são os donos de canais de notícias e ao mesmo tempo têm a competência para atribuir concessões onde ele mesmos serão os beneficiados? ” Bucci perguntou. “A Constituição proíbe expressamente tal sobreposição de interesses. Assim como proíbe monopólios e oligopólios. Mas nenhuma lei define um monopólio ou oligopólio, aí eles podem colocar um irmão, primo ou tio como homem de frente” reclama Bucci.

Há também a questão da verba publicitária. O relatório qualifica de quase incestuosa essa relação.

“Em 2009, o governo federal gastou mais de 1,5 bilhões de reais (600 milhões de euros) em publicidade nos meios de comunicação de propriedade privada.  Em 2010, o governo municipal de São Paulo gastou dos 110 milhões de reais (40 milhões de euros) e o governo do estado de São Paulo passou dos 266 milhões de reais (97 milhões de euros) em anúncios de mídia. “Os principais grupos de mídia, como Folha, Estado e Globo sobreviveriam sem esses pagamentos no entanto a média  e pequena empresa não sobreviveria “.  Dessa forma o estado contribui para a continuidade da monopolização dos meios de comunicação, pois 60 % deste total fica com a grande imprensa.

A grande imprensa sempre se refere ao ex-presidente Lula como um caudilho, demagogo, populista, direta ou indiretamente. E tentam passar essa imagem para a população.

Porém se formos analisarmos os verdadeiros coronéis, caudilhos e manipuladores são os donos desses conglomerados. Eles se portam realmente como os antigos “coronéis”. Mandam e  desmandam. Abrem e fecham. Constroem e destroem.

Atualmente graças a tecnologia e a coragem de alguns jornalista o cidadão comum tem acesso a outras informações. E não só aquelas que eles tentam transmitir. O pluralismo de informação faz a diferença num estado democrático.

Acabar com esse monopólio não é fácil. Mas não é impossível.  A Argentina trava atualmente uma briga enorme com o grupo Clarin. Ley dos Medios, assim é chamado a lei que obriga o fim dos privilégios desses grandes grupos.

O pluralismo e o livre fluxo de informação faz bem para a democracia.

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